VIS A VIS E O MUNDO DO LADO DE CÁ



Acabei de assistir a série espanhola Vis a Vis, atualmente na Netflix. Desde o início, percebi a rica diversidade existente na prisão feminina Cruz Del Norte e Cruz Del Sul, experimentos prisionais privados. Há espanholas, imigrantes, hetero, homo e bissexuais, cristãs, mulçumanas, ciganas, ateias, jovens, idosas, pobres e endinheiradas. E os mais diversos egos. Tamanha riqueza só poderia produzir muitos conflitos, jogos de poder, violência, mas também a humanização de pessoas à margem da lei. E é aí que está a mão do criador e roteirista Aléx Pina, o mesmo de La Casa de Papel: as vilãs são as protagonistas que nos viciam.


Pina pensou em um ambiente de forte traço multicultural. E fez com que a gente se emocionasse, apoiasse, gritasse, odiasse e se apaixonasse por presas, com traços bastante diferentes, que cometeram delitos e estão algemadas por terem quebrado o pacto civil.


O espaço prisional, representando uma miniatura da sociedade, expõe múltiplas vivências e fraturas. Apesar dos crimes, o diretor tentou criar um ar de empatia dos telespectadores com as detentas, mostrando suas trajetórias pessoais e o que as levou a incumbirem no mundo da ilegalidade. O seu objetivo, entre outros, foi nos fazer ver que qualquer ser humano poderia ter infringido as regras de convivência. Quem sabe?!


A compaixão foi um sentimento que tomou conta de mim em alguns momentos. Personagens como Macarena, Zulema, Kabila, Saray, Sole, Antonia, Tere, tiveram suas entranhas expostas. E elas falavam sobre isso o tempo todo nas filmagens à parte. A psique de funcionários e diretores da prisão, tais como Sandoval, Palácios, Fábio, Valbuena, Miranda, também foram expostas, mas com menor profundidade, exceção feita à Sandoval. Tivemos acesso ao subsolo das mais diferentes personagens. E também vemos as suas mudanças.


Tal como La Casa de Papel, Pina utilizou a cartada de humanizar os desumanizados e estigmatizados pela sociedade. Vejo isso em Goya, que é obesa, lésbica e bruta; Saray, uma cigana lésbica; Zulema que é mulçumana. Ao trazer essas questões, ele também quis mostrar o lado de quem sofre preconceito e intolerância diariamente. Kabila é negra e lésbica; minoria em seu país e na prisão, é perseguida por sua cor; diversas vezes, Valbuena, um dos carcereiros brancos, chama-a de macaca, chocolate. Infelizmente ele reflete o que há de mais podre por aqui, do lado de fora dos muros.


A cor amarela dos macacões das presas é uma identidade forte. Ali todas deveriam ser iguais, mas são diferentes. E como são! E esse forte impacto “amarelístico” diminui o ar cinzento, ríspido e violento da prisão. Mas não só de conflito, hostilidade e rudez vive Cruz Del Norte e Sul. Fortes laços de amizade e lealdade não são raros. Algumas prisioneiras consideram o lugar a sua casa; outras enxergam uma família, é o caso de Sole. Outras ainda têm medo de sair, a exemplo de Kabila.


Há vários dilemas, dramas e escolhas complexas que as personagens precisam experimentar diariamente. Algumas escolhas aumentam ou diminuem a pena durante a prisão. E eis aqui um ponto importante: o diretor não foca somente nas questões estruturais e nos desajustes sociais que levaram algumas mulheres ao crime; mas há também decisões individuais que impactam direta ou indiretamente nas suas vidas. Ou seja, elas poderiam agir diferente, mesmo com todas as consequências indesejáveis.


Colocar personagens femininas fortes como protagonistas, que tomam decisões e sabem que as implicações são inevitáveis, é muito glorioso. Não há aqui a questão de sexo frágil inventada pelo patriarcado. Elas são fodas! Amadas ou odiadas por nós, transitam entre a frieza (Zulema) e a mais delicada atitude passional, por vezes impulsiva (Vargas ou Kabila, por exemplo). Além disso, de atos estúpidos ou impensáveis, toda a rebeldia sinaliza, às vezes, que é melhor fazer algo agora do que não fazer nada e padecer psicologicamente.

O maior sofrimento das detentas não é o castigo físico, pois elas apanham e apanham bastante, mas a punição psicológica. E quando a gente traz isso para o lado de fora dos muros, não podemos ignorar o fato de que todos nós sofremos pelo que não fizemos e deveríamos ter feito. A apatia, o medo, a indiferença quanto aos atos errados que presenciamos no cotidiano, pode ser um gatilho para um longo sofrimento mental e emocional. O arrependimento dói.


Dentro e fora da prisão, todo dia é uma folha em branco a ser preenchida, afinal eu, você e Macarena não sabemos o que ocorrerá pela frente. Decisões são tomadas o tempo todo, novas ou aquelas registradas inconscientemente. As novidades são sempre perturbadoras, nos tiram do hábito - que é bem confortante e nos ausenta de novas volições - e nos obrigam a encará-las, cedo ou tarde.


Vis a Vis é uma boa ficção, eu recomendo. É uma interessante mistura de drama novelístico com ação e tensão constante. Apesar de embelezar as prisões, que, em sua maioria, são como masmorras, principalmente em países periféricos, e colocar uma protagonista loira de classe média, que para muitos não condiz com a realidade, a série trata de questões sobre relação de poder e dominação, drogas que entram nas prisões, vício, preconceito, traição, nudez, amizade, lealdade, maternidade, romance, além de excessos cometidos devido a tensão e constante pressão num ambiente fechado. Há uma diversidade que espelha a sociedade multicultural, num mundo cada vez mais global e plural.


Link da imagem: https://seriadornaveia.com.br/mostre-fa-vis-a-vis/

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