VOCÊ É NEGRO OU ESTÁ NEGRO? Os riscos do essencialismo nas lutas identitárias




De todos os movimentos identitários, e toda uma infinidade de pautas e demandas que brotaram da nova esquerda na década de 60, o movimento negro é o mais curioso, ao menos quando se analisa sua estrutura de linguagem e suas táticas de combate. Enquanto outros movimentos enxergam suas “identidades” como recortes históricos, frágeis, e até pragmáticos, a palavra “negro” parece ter mais força, mais energia, mais solidez. Esse significante (N-E-G-R-O), como disse o próprio Stuart Hall, se apresenta muitas vezes como um elo místico, consistente, algo que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço, entrando em um registro diferenciado, quase metafísico. Aquele significante, ao menos quando passeia por programas de TV liberais, além de plataformas como Facebook e Instagram, parece trazer consigo um significado inevitável, um vínculo nada arbitrário. Nas densas areias do tempo, nos limites da própria história, algo parece aguardar um tipo de descoberta, uma revelação, um resgate. Algo parece adormecido apenas esperando a retomada de um “ser” oculto, legítimo, real, extraído de um devir histórico suspeito e questionável.


Foucault, em sua história da sexualidade (vol. 1), escreveu uma frase no mínimo estranha, um comentário que muitos ainda hoje não entenderam direto, ao menos depois de uma leitura rápida daquele livro tão complexo. Segundo esse filosofo francês, não existia homossexual na Grécia antiga. Diante dessa frase, completamente perplexo e até insultado, você pergunta: “espera um pouco!!! Não existiam pessoas que transavam com outras do mesmo sexo?”. Claro que sim, claro que existiam homens transando com homens e mulheres transando com mulheres. O que não existia era um “processo de subjetivação”, ou seja, sujeitos que enxergavam a si mesmos como “gays”, assim como todo um sistema classificatório reforçando esse gesto identitário.


Quando se pensa no movimento negro, enquanto uma prática de resistência diante de um mundo transbordando em racismo, existe também um processo de subjetivação no conceito de "negritude", de um corpo negro que se enxerga enquanto tal, que percebe a si mesmo enquanto negro, numa espécie de recuo reflexivo em busca de uma correspondência identitária. Mas o que significa esse “si”? O que esse “recuo” revela? Em termos foucaultianos, onde se ampara essa “negritude”, qual seu fundamento, qual sua letigimidade? Seria, talvez, uma essência, uma natureza, algo místico, cósmico? Na verdade, esse processo de subjetivação é fruto de um registro histórico, provisório, reflexo de uma trajetória institucional muito específica. Ao longo do tempo, desde o século XVI, com o início das investidas colonizadoras, tivemos dois grandes processos de subjetivação envolvendo o corpo negro: 1) aquele do colonizador que torna o corpo negro aversivo a si mesmo, como é bem descrito por Fanon em seu “peles negras, máscaras brancas”. 2) o segundo grande processo de subjetivação envolve o trabalho dos próprios movimentos negros, ao tornar esse “retorno para si” algo de positivo, uma autoconsciência que agora tem melhores predicados.


Apesar das diferenças desses dois processos de subjetivação, ambos seriam históricos, provisórios, o que nos leva a supor que em um mundo sem racismo, negros não existem, da mesma forma que em um mundo sem homofobia, gays não existiriam. Segundo essa linha de raciocínio mais pós-estrutural, de figuras como Foucault, Butler e Spivak, é preciso ter cuidado na forma como identidades são trabalhadas, evitando essencializações radicais.


É preciso deixar claro que palavras como “negritude”, “mãe Africa”, ou coisas do tipo, são extremamente importantes na luta política, entrando naquilo que Spivak chamou de “essencialismo estratégico”, ou seja, categorias que trazem um ganho prático fundamental. Qual é, portanto, o risco? O risco é esquecer da parte do “estratégico”, é acreditar que categorias transcendem a história, transcendem as interpretações, os encontros, os traumas, as crises, as lutas... é acreditar em algo desencarnado, sem processo, sem trajetória, mas apenas um núcleo essencial que deve ser descoberto. O significante “n-e-g-r-o”, quando pensamos de forma pragmática, deve ser visto apenas como uma ferramenta, um instrumento com data de validade, apenas aguardando o instante certo para transcender a si mesmo, momento esse que vai existir apenas através de uma atitude antirracista. É interessante que a luta antirracista implica, a longo prazo, uma destruição dos próprios alicerces que garantem sua própria permanência. Ou seja, a luta antirracista, pensada a partir das referências utilizadas nesse ensaio, implica, a longo prazo, na abolição do “negro” enquanto processo subjetivador, abrindo espaço, talvez, para novos processos de subjetivação necessários no futuro. Isso significa que a luta antirracista, no limite, não quer apenas substituir um predicado por outro, ou uma estrutura de subjetivação por outra, mas algo muito mais radical do que isso.


Ser antirracista significa a longo prazo a superação de qualquer processo subjetivador que enquadre corpos em registros provisórios. Ser antirracista, na minha opinião, é ser pós-identitário, é transcender os limites confortáveis das identidades, tornando cada uma delas simples ferramentas práticas em rota de dissolução. Ser antirracista é ser antiessencialista, já que o racismo, e o discurso dominante, tem na essência um dos seus truques de mágica, suas estratégias de poder. Como diria Stuart Hall, é preciso aceitar, de uma vez por todas, que não existem garantias no campo da luta política de esquerda, nenhum tipo de paraíso perdido a ser resgatado, nenhum tipo de sujeito reprimido a ser libertado, mas um movimento complexo, dinâmico e em rede. Antes de identidades, antes de nomes, rótulos, somos uma rede complexa de afecções, um corpo incapaz de ser contido nas fronteiras de qualquer linguagem. Sem dúvida, identidades existem, e devem existir, mas apenas como sintomas de uma resistência, como sintomas de um movimento histórico, pontual... CONTINGENTE.

Como tinha dito antes no começo desse ensaio, em um mundo antirracista negros não existem, da mesma forma que em um mundo não homofóbico, gays não existiriam. Processos de subjetivação, sejam eles quais forem, sejam dos dominantes ou dos dominados, fazem parte de um único movimento dialético com data de validade, sendo ambos frutos do mesmo fluxo histórico.


Por isso que precisamos abandonar a mania essencialista que ainda atravessa vários setores de esquerda, principalmente aquele que chamo de esquerda liberal, caso contrário problemas políticos, e até científicos, podem aparecer pelo caminho. O essencialismo pode se apresentar como confortável em um primeiro momento, assim como eficiente do ponto de vista prático e político, mas a longo prazo apenas cria barreiras, muitas vezes até verdadeiros abismos. É essa estrutura essencialista, essa carcaça que ainda herdamos de um passado colonial, que insiste em invadir e dispersar nossas lutas políticas, relativizando tudo ao nosso redor. O essencialismo, portanto, precisa ser evitado, já que continua sendo a marca do colonizador, ao menos enquanto forma, não importando as motivações em jogo. Não adianta apenas trocar os predicados, não adianta apenas criar novos adjetivos, mas principalmente sugerir novas formas de pensar, sentir e viver. O essencialismo hoje, em tempos reacionários, é um metafórico e doloroso tiro no pé da própria esquerda. Não é hora de se esconder em cavernas identitárias, mas produzir modelos coletivos e sólidos de luta em tempos de "neoliberalismo político", como diria Ricardo Antunes. O essencialismo puro, aquele mais radical, portanto, retira da esquerda a própria possibilidade de diálogo, conexão e resistência. Como diria Marx, se referindo ao esquerdismo utópico e sua metafísica disfarçada, a busca por essências é apenas um registro conservador e perigoso que precisa ser removido. Como sempre reforço em aulas e palestras: "não precisamos de metafísica para fazer política".


Referência da imagem:


https://www.condsef.org.br/noticias/movimento-negro-vai-as-ruas-sao-paulo-contra-pacote-anticrime-moro

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