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VOCÊ CONHECE A MISSÃO GUANABARA?: Voto Feminino em Risco

há 9 minutos
4 min de leitura



Tive conhecimento recente sobre uma organização cristã que está pouco a pouco sendo conhecida no país,ainda mais agora que as urnas apontaram um aprofundamento do conservadorismo no Brasil - um reacionarismo camuflado, melhor dizendo. Trata-se da Missão Guanabara, um instituto teológico voltado para “uma nova cristandade”, segundo o próprio site que gerenciam. O que poucos sabem é que esse grupo está associado a várias revisões do papel da mulher na sociedade e, articulado a alguns influencers,defende,através do eufemismo “voto familiar”, que as mulheres percam o direito ao voto. Muitos devem estar achando que isso é balela e que é muito improvável de ocorrer, como falou a ministra Carmén Lucia ao saber que existem pessoas que proclamam a derrubada do direito ao voto feminino. Porém, o dia de amanhã está cada vez mais nebuloso…

 

Essa Missão Guanabara aí está associada a uma congregação de igrejas presbisterianas coordenada pelo pastor estadunidense Douglas Wilson, que defende a liderança masculina e, por consequinte, a submissão da mulher, o que gerou a ideia do “voto familiar” exercido pelo chefe de família, ou seja, o homem da casa. A MG oferece cursos sobre reorganização familiar e outras pautas ultraconservadoras, administrados por Joffre Swait. Lembra muito a Tradição, Família, e Propriedade, uma organização civil fundada por Plínio Correa de Oliveira que promoveu manifestações em apoio ao Golpe Militar de 1964 e os Arautos do Evangelho, associação católica surgida em 1999 também ligada às ideias de Plinio. Pra vocês terem uma ideia, eles me enviaram uma revista onde reconhecia o então Papa Emérito Bento XVI como líder do Vaticano, quando Francisco já ocupava o posto.

 

Mais conhecidos que essa ordem religiosa são os depoimentos macabros de influencers, infelizmente, com grande público, como Renato Trezoitão e Paulo Figueredo, que defendem que “mulher boa é mulher em casa”. "A mulher colocar o trabalho e o estudo como a prioridade da vida dela é autodestruição espiritual, física e financeira”, teria dito o infeliz Trezoitão, um pertio criminal baiano. Paulo Figueredo afirmou que “estatisticamente” as mulheres votam mal, “principalmente as solteiras”.Fica claro o repúdio ao empoderamento feminino e a busca incensante das feministas por direitos iguais em todas as instâncias sociais. E as urnas não mentiram: a grande quantidade de votos destinados a políticos do Partido Liberal - muitos deles influenciadores - nos leva a crer que significativa parcela do eleitorado ou aprova ou estão alheios a pautas que possam desvalorizar a luta das mulheres por conquistas sociais e políiticas. A BBC Brasil vem mapeando vídeos e transmissões sobre o tema.

 

Como “miséria pouca é bobagem”, algumas mulheres também defendem essa pouca vergonha , como é o caso da influenciadora Pietra Bertolazzi e da consultora de investimentos Fernanda Guardian. Bertolazzi tem mais de 1 milhão de seguidores e acredita que as decisões finais das mulheres não pertecem a elas, e sim a um homem, seja marido ou pai. Guardian abriria mão do voto “numa boa”, cabendo aos homens decidirem o futuro da nação.É importante salientar que as mulheres participam do sufrágio eleitoral desde 1932 e agora, em pleno século XXI, estar em pauta uma articulação futura que possa vir a cessar esse direito é de um retrocesso atroz!Não precisamos ir muito longe…há 15 anos atrás um papo desse seria impossível. Quem puxasse o assunto seria chamado de maluco. Lembrando que nesse período estipulado havia uma mulher presidindo o país. De lá pra cá, aconteceu uma espécie de involução cognitiva que causou uma inversão de valores, capaz de levar à presidência um polemista boquirroto, que nos mesmos 15 anos atrás era ridicularizado no programa CQC como um perfeito idiota.

 

Não tenho lugar de fala pra falar sobre as impressões dessa pauta sobre o ponto de vista das mulheres. Elas tem dupla, ou até tripla jornada de trabalho, são elas que tomam à frente de redes de cuidado, cuidando dos idosos num país que envelhece mais a cada geração. Segundo o IBGE, entre 49% e 51% são chefes de família, muitas delas mães solo. Para o cientista político Josué Medeiros, são elas que podem decidir essa eleição - basicamente mulheres da classe C. Rejeitam mais projetos de extrema-direita e abominam políticas de segurança pública muito opressoras. Felipe Nunes, da Quaest, já avaliou que mulheres votam mais na esquerda. Taí um dos motivos dessa discussão. Maior parte dos influenciadores citados nesse artigo pertencem ao campo reacionário que apoia agendas ligadas ao retrocesso, como a abolição do voto feminino - o voto frequente na esquerda inclusive foi lembrado por Fernanda Guardian.

 

E há muito mais deles em grupos red pill e no universo da “machosfera”, presentes nas bolhas das redes sociais. Recentemente, o ator Juliano Cazarré resolveu ministrar um curso sobre ” a crise da masculinidade”, discutindo liderança, família, e espiritualidade cristã. Ou seja, pautas do cristianismo misturadas com misoginia, algo que todos devemos abrir os olhos. O que as urnas apuraram são sinais indicativos de que segmentos da sociedade topam discussões que há 15 anos atrás se tornariam piadas em mesa de bar.Agora é sobre voto feminino. E depois? Negros e gays fiquem espertos!


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