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VONTADE DE PODER E LIBERDADE: Os EUA e a Venezuela à Luz de Schopenhauer





Pensar um cenário de invasão dos Estados Unidos à Venezuela, acompanhado da captura ou sequestro de Nicolás Maduro, pode ganhar uma leitura mais profunda e larga quando observada à luz do filósofo Arthur Schopenhauer, especialmente a partir de sua obra O mundo como vontade e o mundo como representação. Essa abordagem ajuda a ir além do discurso político oficial e revela o que costuma ficar escondido por trás das narrativas de “libertação” e “defesa da democracia”.


Para Schopenhauer, o mundo que vemos (Estados, governos, leis, discursos morais) é apenas representação. É a forma organizada pela qual tentamos dar sentido à realidade. Por trás dessa aparência, porém, atua algo mais denso e inquietante: a vontade, uma força cega, irracional, que busca apenas se afirmar, expandir-se e dominar. Ela não age por ética ou justiça, mas por impulso e interesse. A política internacional, nesse sentido, deixa de ser um espaço de valores elevados e passa a ser um campo de disputa entre vontades de poder.


Sob essa perspectiva, os discursos usados pelos Estados Unidos para justificar intervenções (democracia, direitos humanos, liberdade) pertencem ao plano da representação. Funcionam como fachadas morais, narrativas que tentam organizar e embelezar ações que, no fundo, respondem a interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos. A invasão ou o sequestro de um chefe de Estado não surgem, assim, como exceções trágicas, mas como expressões recorrentes da vontade imperial de controle.


A captura ou sequetro de Maduro, nessa leitura, não simboliza justiça nem libertação. Trata-se da redução do outro a objeto, a um obstáculo que precisa ser removido. O governante deixa de ser sujeito político e se transforma em peça descartável de um jogo maior. Não se trata, portanto, de salvar um povo, mas de reafirmar quem manda, quem decide e quem pode impor sua força.


Schopenhauer também alerta que a vontade nunca se satisfaz plenamente. Ela conquista, domina por um momento, mas logo volta a desejar mais. Por isso, mesmo quando um regime cai, o sofrimento não termina. Mudam-se os líderes, mas permanecem as estruturas que produzem desigualdade, instabilidade e dependência. A população continua pagando o preço de decisões tomadas longe de sua realidade.


Nesse sentido, a postura dos Estados Unidos revela uma ilusão típica da modernidade: a crença de que a razão governa o mundo. Para Schopenhauer, ocorre exatamente o contrário. A razão apenas serve à vontade, criando argumentos sofisticados para justificar decisões já tomadas. Sanções econômicas, bloqueios, intervenções militares e sequestros aparecem como estratégias técnicas, quando, na verdade, são expressões de uma mesma lógica de dominação.


A consequência é dura, mas clara: enquanto a política internacional for movida por vontades concorrentes de poder, ela continuará sendo um espaço produtor de sofrimento. A pretensão norte-americana de agir como árbitro moral global não apenas se mostra ilusória, mas perigosa, pois produz violência real sob o disfarce da virtude.


Lida a partir de Schopenhauer, a invasão e o sequestro deixam de ser episódios isolados e passam a ser sintomas de um mundo que insiste em discursos civilizatórios enquanto pratica a barbárie de forma organizada. A vontade domina, a narrativa justifica, e os povos arcam com as consequências. A lição é incômoda, mas necessária: a violência imperial não é um desvio do sistema: ela é parte normal de um mundo governado pela vontade de dominar.


IMAGENS: Outras Palavras e Olavete (Colagem)

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