“WE ARE AMERICA. WE STAND FOR DEMOCRACY”
- Alan Rangel

- há 5 dias
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O ideal nacionalista, American First, mostra seus tentáculos com uma nova invasão. A bola da vez é a Venezuela. Ao contrário do título escolhido, não é um ataque em nome da democracia. Também não é uma luta contra o narcotráfico internacional, como narram por aí. É uma rasa justificativa. Nenhuma análise competente leva isso a sério. Na verdade, é uma amostra do poderio militar americano na América Latina, visto como seu eterno jardim. É a ressureição da Doutrina Monroe. Uma mensagem de força para o mundo, uma ação unilateral e ilegal [1], passando por cima da soberania de um país e dos acordos internacionais. É, também, um recado à China e Rússia, que aumentaram muito sua influência na região. Se trata de interesses geopolíticos e econômicos, de olho na maior reserva de petróleo do mundo, minerais e outros recursos preciosos. Estados Unidos ecoa: “nós sempre estivemos aqui!”
Comento, brevemente, um antigo artigo, intitulado Realismo versus globalismo nas relações internacionais, publicado na Revista Lua Nova, em 1994, do professor de ciência política da UNESP, Tullo Vigevani, com outros coautores. A visão tradicional do realismo político enfatiza o Estado como principal ator no contexto internacional anárquico (originário da visão pessimista do ser humano), focando em segurança nacional, soberania e luta pelo poder. Já o globalismo enfatiza a cooperação internacional, a livre concorrência no mercado transnacional, com espaço para o crescimento de atores não estatais, como blocos econômicos, políticos e as Ongs. Ou seja, a lógica predatória de todos contra todos, no modelo hobbesiano, é reduzida junto com a figura central do Estado. Isso é o que se aproxima da visão liberal.
Os autores tentam aproximar ambas as vertentes. Dizem que elas, por exemplo, reconhecem a importância de fatores econômicos que influenciam as dinâmicas das decisões mundiais, que molda os arranjos atuais, e que é possível integrar poder estatal e interdependência.
Sobre os Estados Unidos.
Os desequilíbrios nas relações de trocas financeiras e comerciais, alguns indicadores de produtividade, о endividamento dos Estados Unidos erodem sua capacidade de sustentação de um sistema internacional liberal (p.10)[2]
É nesse contexto que devemos entender o mundo multipolar. Os norte-americanos viram sua influência econômica, política e cultural serem reduzidas década após década. O crescimento de blocos políticos e econômicos, como a União Europeia e os Brics, o gigantismo da China na ordem global, e o crescimento do poderio militar russo na Europa, tornaram-se uma ameaça à hegemonia norte-americana.
Aqui é necessário recuperar o poder explicativo da teoria realista das Relações Internacionais, com uma linguagem 2.0, que inclui a necessidade do Estado de expandir os interesses do capital de seu país, usando a velha força militar. Os EUA vêm trucidando acordos internacionais há anos. Passou longe de ser um ator que respeitou a soberania de outros países; vem se afastando de Tratados Internacionais de cooperação e, por fim, rasga a carta dos Direitos Humanos, mesmo em sua própria casa. Só em 2025, seis países foram bombardeados por Trump: Síria, Iraque, Irã, Nigéria, Iêmen e Somália. No século XXI, podemos incluir o Paquistão, Líbia e Afeganistão. Em nome de quê? Da paz e da democracia, como eles mesmos se gabam de falar.
É certo que Nicolás Maduro nunca foi um democrata. Mas, também, não podemos defender os EUA, como se fossem os bastiões da liberdade e da paz mundial.
Não se pode perder de vista que o realismo político nunca desapareceu. Trump e o establishment americano encarnam o velho pragmatismo estratégico. Se incluirmos a dimensão econômica, a necessidade interminável do capital de expandir e explorar os recursos naturais ainda existentes mundo afora, e a importância do Estado de impor, pelo uso da força (armas nucleares e a maior tecnologia e poderio militar do mundo) para humilhar os mais fracos e enfraquecer os concorrentes, acima de qualquer tipo de cooperação internacional (política, ética e econômica), temos a versão do realismo político 2.0 contra o cambaleante globalismo liberal.
A ver como o xadrez político será jogado daqui por diante.
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[2]VIGEVANI, Tullo; VEIGA, João Paulo C.; MARIANO, Karina Lilia P. Realismo versus globalismo nas relações internacionais. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 34, p. 5-26, dez. 1994. DOI: 10.1590/S0102-64451994000300002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ln/a/qjhvYNX9YMdbJgSVdpwTswv/.



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