É JUSTO CANCELAR OS SHOWS DE JORGE E MATEUS NO NORDESTE?

Nessa semana ocorreu uma polêmica envolvendo a dupla sertaneja Jorge e Mateus. Os artistas tiveram shows cancelados que fariam no Reveillon de Recife e Fortaleza. Por qual motivo?Os dois teriam anunciado apoio ao candidato Flávio Bolsonaro e o público dessas duas capitais reagiu,considerando que não cabia artistas com posicionamentos ideológicos próximos a grupos que cometem uma série de atos xenofóbicos a nordestinos se apresentarem e ganharem gordos cachês por aqui. Jorge se pronunciou nas redes afirmando que jamais fez qualquer critica ao povo da região,reiterando o carinho que sempre teve por aqui. De fato,não encontrei nenhuma fala problemática de nenhum deles sobre nosso povo. Ainda assim,as duas prefeituras decidiram,por pressão popular,revogar os contratos.
Agora é a vez de Salvador tentar isso. A prefeitura divulgou as apresentações do Festival da Virada desse ano e lá estão Jorge e Mateus. Em solidariedade a Recife e Fortaleza,uma campanha para que a administração municipal daqui acompanhe a decisão cresce nas redes. O ator Érico Brás e a jornalista Jullie Dutra encabeçam pedidos e abaixo-assinado para que o cancelamento se concretize. O prefeito Bruno Reis resiste,afirmando que posição política não é critério para contratação ou dispensa. E que a música e o entretenimento devem prevalecer. Por aqui, não apenas o show dessa dupla,mas também estão entrando nos cortes outra dupla sertaneja, Zé Neto e Cristiano e o cantor Natanzinho Lima.
Não é de hoje a aproximação entre os músicos desse gênero musical e o bolsonarismo. Isso vem ocorrendo desde 2018, com Jair Bolsonaro. Durante a campanha de segundo turno,Flávio estava lá em Goiânia recebendo apoio de mais de 30 artistas, a maioria do sertanejo,e quem estava lá?Jorge e Mateus. Não é novidade que esse ritmo é trilha sonora da juventude de direita,extremista e reacionária, no país. E a maioria deles anda por aqui, nos festejos juninos, festas de padroeiro,vaquejadas,viradas de ano,e até no carnaval. Ou seja,aqui é a mina de ouro de muitos deles. O público vai,assiste,canta,e aprova. Alguns deles são propietários de fazenda de gado, de plantações diversas, inchando as fileiras do agronegócio. Então,seguem uma linha de familiaridade com o projeto “liberal” e toda a cartilha de empreendedorismo,menos impostos,fortalecimento do agro,etc. Muitos, criticos da lei Rouanet,mas vem aqui encher seus bolsos com dinheiro público de prefeituras. Quanto a isso, problema nenhum,né? Sérgio Reis já teve a cara de pau de afirmar que verbas de prefeitura “não é dinheiro público”.
Solicitações de cancelamento por manifestação política não é novidade. No ano passado, 2025,, o IRA! teve quatro shows suspensos em cidades do Sul após o vocalista Nazi afirmar,durante exibição na cidade de Contagem - MG, que bolsonaristas não deviam comprar discos nem acompanhar a carreira deles. Isso tudo após gritar “não à anistia”, se referindo ao julgamento de Jair Bolsonaro e o núcleo militar do seu governo durante tentativa de golpe em 2022. O cancelamento partiu da produtora de eventos que cuidava da turnê, após parte do público pedir reembolso dos ingressos já adquiridos. Gustavo Lima, Sérgio Reis, Ivete Sangalo, e Nando Reis,também já tiveram ou shows revogados ou sofreram pressões para que as apresentações fossem barradas por conta de controvérsia envolvendo críticas a um governante ou falas de teor político. Ou seja, expressar opiniões envolvendo princípios políticos não é uma boa atitude.
Esse assunto não é fácil de ser explorado, é espinhoso detectar o que está correto ou não. A análise deve ser cautelosa,com idas e vindas,e observação atenta de várias nuances. No caso específico tratado aqui, é verdade que Jorge e Mateus nunca falaram nada que fosse repugnante ou xenófobo contra nordestinos. E até concordo com o prefeito soteropolitano, quando fala que as qualidades artísticas devem vir em primeiro lugar (quando falo “qualidade”, não me refiro se a dupla em questão tem talento ou não, mas que o critério deve envolver popularidade, aceitação, sucesso em outras apresentações na mesma cidade, boa relação com equipes de promotores de eventos,etc.). Dito isso, parece censura quando rola pressão porque simplesmente os caras votaram e apoiaram um político abjeto. Mas como falei no início desse parágrafo, nada pode ser reducionista e simplista a esse ponto.
Desde que essa “polarização” tem se acirrado, os ataques de cidadãos do sul do país a nordestinos tem se intensificado, com xenofobia grosseira. Segundo dados da Safernet, uma ONG que promove direitos humanos na internet, as ofensas a pessoas oriundas do Nordeste cresceu 821% em 2022. 821%!!Em 2018 já tinha sido de 595%. "Pobre", "burro", "analfabeto", e "ingrato", são alguns dos xingamentos analisados na rede soxial X. Os números desse ano ainda estão sendo estudados, mas já dá pra notar que todo esse ódio direcionado tem ligação com o movimento extremista que abarca o bolsonarismo como espectro ideológico importante, presente em nossa sociedade. Todo esse incremento acontece a cada ano eleitoral. Então podemos inferir que, ao requisitarem o cancelamento de shows dessa dupla, boa parte da população dessas capitais nordestinas estão comprando a briga, independentemente se eles falaram bem, mal, ou ficaram indiferentes. É uma resposta, um “não vamos aceitar artistas que contribuem pra fortalecer políticos que semeiam ódio!”. Isso é legítimo.
Em julho de 2019 temos um exemplo de que o grupo político apoiado pelos sertanejos incentiva esse ódio. O então presidente Jair Bolsonaro, durante uma reunião com equipe de governo, teve áudio vazado, onde dizia “daqueles governadores da ‘paraíba’ o pior é o do Maranhão”, referindo-se ao então governador e atual ministro do STF Flávio Dino. E ainda complementou: “não é pra ter nada com esse cara”. O então presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado, estava utilizando seu cargo para influenciar possíveis prejuízos aos governadores do Nordeste e,por conseguinte, toda a região. E aí pergunto: como não se indignar com os sertanejos??? Eles estão defendendo o lado deles - de empresários, não de artistas - e agora recebem o retorno, por via de solicitações de cancelamento dos seus shows. Justo. Se o povo do Sul, Sudeste, e artistas do Centro-Oeste estão de um lado apoiando gente que toma esse tipo de ato, é nítido um desagravo utlilizando as armas que tem: o boicote.
Se a moda pegar e a pressão surtir efeito em Salvador - o que acho difícil - isso pode “contaminar” outras praças e assim se estabelecer uma cobrança, de que para se apresentarem aqui precisam mais do que manifestar respeito, é preciso ser intolerante com forças que tratam o nordestino como ser de segunda classe. Apesar de tudo, não é positivo apreciar um artista dependendo de suas ideologias. A produção artítica deve ser mais importante que o próprio idealizador dela.
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