"É QUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO"
- Everton Nery

- há 4 dias
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A frase de Caetano Veloso “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, ressoa profundamente com a teoria lacaniana, especialmente no que diz respeito ao Estádio do Espelho, à constituição do eu e ao papel do Grande Outro na estruturação do desejo. Podemos interpretar essa afirmação dentro do pensamento de Lacan a partir de alguns eixos centrais:
O primeiro é o Estádio do Espelho e a Formação do Eu. Em Lacan, o Estádio do Espelho é o momento em que a criança, entre seis e dezoito meses, se reconhece em um espelho e identifica aquela imagem como sua. Esse reconhecimento, no entanto, não é direto nem natural: trata-se de uma alienação fundamental. O sujeito se vê como um "eu" unificado, mas esse "eu"; é uma imagem exterior a ele, um Outro que lhe devolve um ideal de completude. Assim, a identidade do sujeito é sempre mediada por uma imagem, por um reflexo. Quando Caetano diz que "Narciso acha feio o que não é espelho", ele aponta para esse mecanismo fundamental: o sujeito busca no mundo aquilo que confirma sua identidade, aquilo que lhe devolve uma imagem coesa e idealizada de si. O que não se encaixa nesse espelho narcisista, ou seja, o que não reforça a imagem que o sujeito tem de si, é percebido como feio, disforme, ameaçador.
O segundo é o Desejo e o Grande Outro. Também em Lacan, o desejo nunca é autônomo: ele é sempre estruturado pelo Outro. O sujeito deseja aquilo que é desejado pelo Outro, e é na linguagem que o desejo se inscreve. Assim, a frase de Caetano pode ser lida como uma denúncia do narcisismo estrutural do sujeito: ele deseja ver apenas aquilo que confirma sua própria identidade, aquilo que não o desestabiliza. Assim, o incômodo com aquilo que “não é espelho” revela, portanto, uma resistência à alteridade, à diferença. A presença do Outro, do que não é mero reflexo do eu, pode gerar angústia, porque confronta o sujeito com a falta que o constitui. Como o desejo é sempre desejado pelo Outro, a repulsa de Narciso ao que não o reflete revela uma tentativa de se preservar da angústia que advém do encontro com o desejo do Outro.
Por fim a Projeção e a Dialética do Olhar. Lacan nos ensina que o sujeito é olhado antes de olhar, ou seja, sua subjetividade se constitui a partir do olhar do Outro. Isso significa que o próprio julgamento do que é feio ou belo não é autônomo, mas estruturado pelo campo simbólico. Quando Narciso rejeita aquilo que não é espelho, ele revela mais sobre si do que sobre o objeto de sua rejeição.
Podemos pensar na frase de Caetano como uma espécie de inversão projetiva: o que é percebido como feio ou indesejável no outro pode, na verdade, ser um traço do próprio sujeito que ele não suporta reconhecer. Essa é uma leitura psicanalítica clássica da projeção: o que mais incomoda no outro geralmente diz respeito a algo que o próprio sujeito teme ou nega em si.
Quando se discute o incômodo com o narcisismo do outro, especialmente o narcisismo dos vivos em oposição ao dos mortos, estamos diante de uma operação semelhante à da frase de Caetano. Aquele que aponta o dedo (o acusador) projeta no outro aquilo que ele mesmo teme reconhecer em si: sua própria dependência do olhar do Outro.
O morto não devolve o olhar, não responde, não se implica no jogo simbólico, por isso seu narcisismo não incomoda. Mas quando o sujeito vivo se sabe visto e assume seu desejo, isso se torna insuportável para aqueles que prefeririam que o desejo estivesse silenciado. O verdadeiro incômodo não está no narcisismo do outro, mas no fato de que ele é um sujeito desejante que escapa ao controle do Outro. O problema não é que ele seja um Narciso, mas que ele se vê e sabe que está sendo visto.
Caetano, ao formular essa frase, aponta para um fenômeno psicanalítico profundo: o sujeito só reconhece como belo aquilo que confirma sua própria imagem idealizada. O que escapa a essa imagem, o que revela a falta, a divisão, a alteridade, é visto como feio, ameaçador. Em Lacan, isso se relaciona diretamente com o Estádio do Espelho e com a estrutura do desejo, sempre mediado pelo olhar do Outro.
Assim, a frase de Caetano pode ser lida como uma síntese poética de um dos princípios fundamentais da psicanálise: não vemos o mundo como ele é, mas como queremos nos ver nele. O que rejeitamos no outro pode ser exatamente aquilo que mais tememos encontrar em nós mesmos.
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Imagem retirada do banco de imagem Pixbay

Interpretar a frase de Caetano Veloso a partir da psicanálise de Lacan, relacionando-a ao narcisismo e à formação da identidade é um ponto de vista interessante, uma vez que traz uma análise coerente e reflexiva, apresentando algumas interpretações mais amplas do que a frase sugere diretamente.
O texto traz uma reflexão muito atual. Em uma sociedade marcada por diferenças culturais, sociais, religiosas e políticas, muitas vezes julgamos o outro a partir dos nossos próprios ponto de vista. O preconceito, a intolerância e a discriminação surgem justamente quando não conseguimos reconhecer a riqueza existente na diversidade humana. Reconhecer que ninguém é dono da verdade e que cada pessoa possui sua própria história nos ajuda a construir relações mais humanas e solidárias.
O texto faz uma reflexão interessante sobre a frase de Caetano Veloso a partir das ideias de Jacques Lacan. Ele mostra que muitas vezes aceitamos melhor aquilo que confirma a imagem que temos de nós mesmos e rejeitamos o que é diferente. Dessa forma, o texto nos convida a pensar sobre como enxergamos os outros e como nossos julgamentos podem revelar aspectos de nós mesmos que nem sempre reconhecemos.