top of page

"É QUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO"

A frase de Caetano Veloso “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, ressoa profundamente com a teoria lacaniana, especialmente no que diz respeito ao Estádio do Espelho, à constituição do eu e ao papel do Grande Outro na estruturação do desejo. Podemos interpretar essa afirmação dentro do pensamento de Lacan a partir de alguns eixos centrais:


O primeiro é o Estádio do Espelho e a Formação do Eu. Em Lacan, o Estádio do Espelho é o momento em que a criança, entre seis e dezoito meses, se reconhece em um espelho e identifica aquela imagem como sua. Esse reconhecimento, no entanto, não é direto nem natural: trata-se de uma alienação fundamental. O sujeito se vê como um "eu" unificado, mas esse "eu"; é uma imagem exterior a ele, um Outro que lhe devolve um ideal de completude. Assim, a identidade do sujeito é sempre mediada por uma imagem, por um reflexo. Quando Caetano diz que "Narciso acha feio o que não é espelho", ele aponta para esse mecanismo fundamental: o sujeito busca no mundo aquilo que confirma sua identidade, aquilo que lhe devolve uma imagem coesa e idealizada de si. O que não se encaixa nesse espelho narcisista, ou seja, o que não reforça a imagem que o sujeito tem de si, é percebido como feio, disforme, ameaçador.


O segundo é o Desejo e o Grande Outro. Também em Lacan, o desejo nunca é autônomo: ele é sempre estruturado pelo Outro. O sujeito deseja aquilo que é desejado pelo Outro, e é na linguagem que o desejo se inscreve. Assim, a frase de Caetano pode ser lida como uma denúncia do narcisismo estrutural do sujeito: ele deseja ver apenas aquilo que confirma sua própria identidade, aquilo que não o desestabiliza. Assim, o incômodo com aquilo que “não é espelho” revela, portanto, uma resistência à alteridade, à diferença. A presença do Outro, do que não é mero reflexo do eu, pode gerar angústia, porque confronta o sujeito com a falta que o constitui. Como o desejo é sempre desejado pelo Outro, a repulsa de Narciso ao que não o reflete revela uma tentativa de se preservar da angústia que advém do encontro com o desejo do Outro.


Por fim a Projeção e a Dialética do Olhar. Lacan nos ensina que o sujeito é olhado antes de olhar, ou seja, sua subjetividade se constitui a partir do olhar do Outro. Isso significa que o próprio julgamento do que é feio ou belo não é autônomo, mas estruturado pelo campo simbólico. Quando Narciso rejeita aquilo que não é espelho, ele revela mais sobre si do que sobre o objeto de sua rejeição.


Podemos pensar na frase de Caetano como uma espécie de inversão projetiva: o que é percebido como feio ou indesejável no outro pode, na verdade, ser um traço do próprio sujeito que ele não suporta reconhecer. Essa é uma leitura psicanalítica clássica da projeção: o que mais incomoda no outro geralmente diz respeito a algo que o próprio sujeito teme ou nega em si.


Quando se discute o incômodo com o narcisismo do outro, especialmente o narcisismo dos vivos em oposição ao dos mortos, estamos diante de uma operação semelhante à da frase de Caetano. Aquele que aponta o dedo (o acusador) projeta no outro aquilo que ele mesmo teme reconhecer em si: sua própria dependência do olhar do Outro.


O morto não devolve o olhar, não responde, não se implica no jogo simbólico, por isso seu narcisismo não incomoda. Mas quando o sujeito vivo se sabe visto e assume seu desejo, isso se torna insuportável para aqueles que prefeririam que o desejo estivesse silenciado. O verdadeiro incômodo não está no narcisismo do outro, mas no fato de que ele é um sujeito desejante que escapa ao controle do Outro. O problema não é que ele seja um Narciso, mas que ele se vê e sabe que está sendo visto.


Caetano, ao formular essa frase, aponta para um fenômeno psicanalítico profundo: o sujeito só reconhece como belo aquilo que confirma sua própria imagem idealizada. O que escapa a essa imagem, o que revela a falta, a divisão, a alteridade, é visto como feio, ameaçador. Em Lacan, isso se relaciona diretamente com o Estádio do Espelho e com a estrutura do desejo, sempre mediado pelo olhar do Outro.


Assim, a frase de Caetano pode ser lida como uma síntese poética de um dos princípios fundamentais da psicanálise: não vemos o mundo como ele é, mas como queremos nos ver nele. O que rejeitamos no outro pode ser exatamente aquilo que mais tememos encontrar em nós mesmos.

________________________________________________________________

Imagem retirada do banco de imagem Pixbay

46 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Vivian Silvestre
02 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Às vezes, o que incomoda não é o diferente em si, mas o fato de ele desafiar a imagem que construímos de nós mesmos

Curtir

Matias
08 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Segue um resumo breve:


O texto interpreta a frase de Caetano Veloso à luz da psicanálise de Jacques Lacan, relacionando-a ao Estádio do Espelho, à formação da identidade e ao papel do Grande Outro. Argumenta que o sujeito tende a valorizar aquilo que confirma sua própria imagem e a rejeitar o que revela a diferença ou a falta. Assim, o incômodo com o outro muitas vezes decorre de projeções de aspectos que o próprio sujeito não aceita em si. Desse modo, a frase sintetiza a ideia de que percebemos o mundo a partir de nossos desejos, identificações e conflitos internos.

Curtir

Nicholas Ámon Lopes Cardoso
08 de jul.

A frase de Caetano ganhou um sentido ainda mais profundo para mim. A reflexão sobre Narciso não fala apenas de alguém que admira a própria imagem, mas também da dificuldade que muitas vezes temos de acolher aquilo que rompe nossas certezas. Talvez o "espelho" não seja apenas aquilo que nos parece semelhante, mas tudo aquilo que confirma nossas crenças e nossos modos de enxergar o mundo.

Minha vivência como sobrevivente renal, realizando hemodiálise, e como homem trans me faz perceber diariamente como a sociedade reage ao que foge desse espelho. Muitas vezes, o diferente desperta estranhamento antes mesmo de despertar curiosidade ou escuta. Em vez de reconhecer o outro em sua singularidade, existe a tendência de enquadrá-lo em imagens prontas,…

Curtir

Gildo pedroso soares
08 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O texto enterpeta que o endivido não deve olha no espelho do outro de forma diferente,deve olha de forma positiva na forma de pensa positiva como deve agir epensa.


Curtir

Dircea
07 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Eu achei o texto muito interessante porque da forma como o texto usa uma frase tão conhecida de Caetano para discutir conceitos da psicanálise de Lacan. Também me fez perceber como uma frase aparentemente simples de Caetano Veloso pode revelar reflexões muito profundas sobre a forma como construímos.

Curtir
bottom of page