"A BANCADA DAS GOSTOSAS"
- Armando Januário

- 11 de mai.
- 7 min de leitura

A sociedade brasileira foi cooptada pela mídia corporativa a enxergar alguns grupos apenas pelas lentes da violência e da sexualização. Quando a informação veiculada é sobre as travestis e mulheres trans, por exemplo, o pensamento coletivo ainda está enraizado nos assassinatos motivados por transfobia e na prostituição. De fato, é essencial seguir denunciando tais crimes, com frequência, perpetrados sob o manto do conservadorismo e do fundamentalismo religioso, bases para a aversão contra pessoas com identidade de gênero diferente daquela imposta no nascimento. Laura Vermont e Dandara dos Santos são alguns nomes sempre presentes na luta histórica contra o transfeminicídio, no País líder em assassinatos contra esse grupo, por quase duas décadas. Mesmo com a equiparação da transfobia ao racismo, determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2019, travestis e transexuais seguem sendo assassinadas e expurgadas de participação efetiva na sociedade. Quantas vezes, em uma loja, somos atendidos por uma travesti ou mulher trans? Quantas gerentes de grandes empresas são travestis ou mulheres trans? Existe alguma grande corporação no Brasil com oportunidade de trabalho presencial para travestis e mulheres trans? Quantas gerentes de grandes empresas são travestis ou mulheres trans? Existe alguma grande corporação no Brasil com oportunidade de trabalho presencial para travestis e mulheres trans? As respostas levam a necessidade de denunciar a profissão do sexo compulsória como um castigo imposto por segmentos da sociedade contra pessoas que seguramente desejam ir além de comercializar seus próprios corpos.
Ainda assim, a militância T prossegue conquistando espaços outrora impensáveis. A luta contra a transfobia – uma luta política – resultou na chegada de travestis e mulheres trans às casas legislativas brasileiras. Das eleições municipais de 2024, 27 travestis/mulheres trans saíram vitoriosas das urnas. Se esse resultado revela uma queda referente a 2020, quando 30 pleiteantes venceram as eleições, houve um crescimento sem precedentes, quanto ao número de travestis e transexuais candidatas: em 2024 foram 624, ante 294 em 2020, mais de 212% de aumento. Isso demonstra o desejo pela representatividade na política institucional e aponta para o crescimento das vozes travestis e transexuais no cenário nacional. Mais ainda: as travestis e mulheres trans negras se fizeram presentes, demonstrando a urgência em aprofundar o debate sobre a interseccionalidade entre gênero, raça/etnia e orientação sexual como aspectos combinantes para disparar mecanismos de opressão e iniquidades.
O espectro político-partidário também funcionou como pêndulo para a vitória: a esmagadora maioria das candidatas pertence ao campo progressista, formado por legendas como PT, PSOL, PDT e PSB. Isso implica dizer que mesmo com a extrema direita utilizando fake news e ódio como ferramentas políticas, esquerda e centro-esquerda seguem como espaços democráticos para a organização da sociedade civil. Longe de considerar os partidos citados como paraísos da democracia, reconhecemos neles o êxito no enfrentamento ao fascismo, em tempos de constante ameaça à democracia brasileira. O uso das redes para fomentar polarizações, os ataques sistemáticos às eleições e mesmo eleições de lideranças autoritárias e comprometidas apenas em corroer o sistema democrático com mentiras, são fatores que provocam desânimo, desconfiança e desinteresse das camadas populares.
Uma das artimanhas utilizadas pela extrema direita é afirmar que travestis e mulheres trans estariam roubando o espaço das mulheres cis, as quais seriam biologicamente superiores. Para isso, partidos alinhados com a ideologia de Flavio Bolsonaro (PL), recorrem a visões deterministas da biologia para alegar que travestis e mulheres trans não seriam mulheres, porquanto elas não teriam os caracteres biológicos ditos femininos. A leitura de A gourmetização da (trans)misoginia: o que é ser mulher? desmonta esse discurso. Em nenhum momento, a biologia é palavra final para determinar a mulheridade e feminilidade dos corpos, antes, ela é um fator que se utilizado ao sabor de conveniências perversas, pode ser uma arma para perseguir e até mesmo exterminar minorias. A História demonstra como a utilização supremacista das ciências biomédicas pode ser perigosa, a partir dos trabalhos do médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909). A sua tese do “criminoso nato” fundamentou o racismo científico, a partir de traços físicos, como mandíbula protuberante e orelhas largas, o que resultou na posterior perseguição do nazismo contra negros, pobres e judeus, como perigo a ordem social. O resultado foram os campos de concentração e milhões de negros, homossexuais, ciganos e judeus assassinados. Ao utilizar uma estratégia semelhante, a extrema direita brasileira retoma aquilo que Adolf Hitler realizou: se ele incitou a população alemã contra os judeus, os extremistas que apoiam Flavio Bolsonaro também incitam as mulheres cis contra as travestis e mulheres trans.
Todavia, com a aproximação das eleições de outubro, uma nova frente de luta contra o fascismo se torna possível. Eleitas para mandatos municipais, travestis e mulheres trans sinalizam candidaturas para o Congresso Nacional. Encontramos esse movimento no discurso da vereadora Thabatta Pimenta. Em suas palavras: “Me tornei a primeira vereadora trans da minha cidade [Carnaúba dos Dantas / Rio Grande do Norte] para lutar pelos direitos do meu irmão com deficiência e famílias atípicas”. Após se eleger vereadora pelo município de Natal, tendo sigo a mais votada em todo o Rio Grande do Norte, ela postula um objetivo maior. Na Semana da Visibilidade Trans, ocorrida em janeiro deste ano, ela se filiou ao PV, para pleitear uma vaga na Câmara dos Deputados e levar a todo o cenário nacional, os projetos que pautam a sua vida pública: defesa das mulheres, da população LGBTQIAPN+ e das famílias atípicas. Como parcela considerável das travestis e mulheres trans, Pimenta recorre ao humor como uma das estratégias para enfrentar o bolsonarismo. Em uma postagem realizada no Instagram, ela foi alvo da típica ofensa fascista. Contudo, ao invés de responder de maneira agressiva, a vereadora disparou: “Avisa que vai ter a bancada das gostosas no congresso. Espumem mais! #precandidatadeputadafederal”.
O humor de Thabatta lembra uma passagem da vida de Freud. Quando da anexação da Áustria pela Alemanha Nazista, a Geheime Staatspolizei, “Polícia Secreta do Estado”, mais conhecida como Gestapo, Anna Freud, foi detida e interrogada. Para ser asilado na Inglaterra e poder levar a sua filha, Freud foi obrigado a assinar um documento no qual declarava ter sido tratado de maneira respeitosa pelos nazistas. Mas, ele foi além da assinatura: “posso recomendar de coração a Gestapo a qualquer pessoa”. Através do humor ácido, o fundador da psicanálise desconstruiu o nazismo e corajosamente denunciou a desumanidade daquele regime de exceção. Thabatta fez algo parecido. Ela sabe como é percebida: um corpo para ser consumido e afastado de qualquer espaço de poder. Se contrapondo a essa ideia, ela cuida do irmão, com paralisia cerebral e incorpora essa causa na sua plataforma política. Reconhecida pela população do Rio Grande do Norte, haja vista ter sido a vereadora mais votada de Natal e de todo o Estado, ela utiliza o corpo como munição para desestabilizar quem se esconde atrás de pautas moralistas para justificar a transfobia e os desejos reprimidos. Com efeito, vários de seus opositores certamente gostariam de assumir a atração afetiva, amorosa e sexual pela vereadora, não o fazendo por medo de perder o status de homens. Nesse ponto, temos uma outra dimensão da transfobia. Em paralelo ao ódio, há o medo de assumir o desejo e experienciar o prazer com uma mulher que performa a sua feminilidade de modo brilhante. Reprimido, o medo vem à tona como aversão: quem não se permite viver ao lado de uma travesti ou mulher trans e enfrentar a transfobia, prega o extermínio. Tentam matar o desejo, influenciando pessoas a matar os corpos daquelas desejadas por eles. Tentam matar o desejo, fomentando a retirada de direitos, como acessar o banheiro público. Tentam, no mínimo, escantear o desejo, resumido a um carro que passa por uma esquina, na qual a porta é aberta, o prazer é consumado e depois a vida prossegue, como se aquele instante jamais tivesse ocorrido.
De maneira inteligente e bem-humorada, Thabatta contribui para um projeto político formado por um conjunto de travestis e mulheres trans. “A Bancada das Gostosas” parece abranger todas as mulheres progressistas e com histórias de construção de identidade de gênero oposta àquela atribuída no nascimento. Longe de ter surgido nas eleições de 2024, essa ideia lembra a Marcha das Vadias, iniciada em 2011, em Toronto, após um policial sugerir que mulheres deveriam evitar se vestir como vadias para não serem vítimas”. Assumindo a posição de gostosa e estrelando sensualidade, Thabatta ataca a heterossexualidade e cisgeneridade compulsórias e doentias, que desconsideram a sua potência de mulher. Estamos falando de um movimento iniciado na Revolução de Stonewall, consolidado no Brasil ao longo de décadas e em contínuo crescimento, com as marchas trans estaduais, resultando na Primeira “Marsha” Nacional pela Visibilidade Trans, ocorrida em 28 de janeiro de 2024. A busca pela coesão programática em torno de uma agenda de quebra dos paradigmas transfóbicos para promoção dos direitos sociais, a exemplo da inclusão no mercado formal de trabalho, da luta incessante contra os transfeminicídios e da expansão do sistema de cotas para travestis e transexuais, enquanto mecanismo de reparação histórica, são algumas pautas elaboradas por um grupo de mulheres como Erika Hilton (PSOL-SP), Duda Salabert (PDT-MG), Linda Brasil (PSOL-SE), Dani Balbi (PcdoB-RJ), além de vereadoras, como Thabatta, Edy Lopes (PT-CE) e postulantes ao Congresso Nacional nas eleições desse ano. Em São Paulo, esse conjunto de ações já começou a se estruturar: à frente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, Erika Hilton destinou, em abril, R$ 2 milhões em emendas parlamentares para as Delegacias de Defesa da Mulher daquele Estado. Com isso, as vítimas terão um atendimento personalizado e moderno.
Quanto a Thabatta Pimenta, ela já deu uma prévia da sua postura na Câmara, caso eleita: em janeiro, a vereadora protocolou uma representação contra um deputado federal da extrema direita, o qual postou uma imagem sugerindo o sequestro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por militares dos Estados Unidos. Sobre o deputado, ela ainda disse: “eu sei que estou pronta para colocar [nome do deputado] no lugar dele na Câmara Federal. Se ele tá achando ruim hoje, imagine quando chegar uma nordestina e arretada naquele lugar pra colocar esse menino no lugar dele”. Ser gostosa aqui remete a ser encantadora para utilizar o bom humor na defesa dos direitos de uma parcela do Brasil sempre esquecida, desmerecida e violada. Encantadora, inclusive, se aproxima de gostosa, para exigir respeito a beleza e as lutas de travestis e mulheres trans.
Gostosas, vadias... putas! Todos esses termos ofensivos utilizados por machos escrotos foram ressignificados para edificar a Bancada das Travestis e Mulheres Trans no Congresso Nacional. Que venham todas elas, portanto, eleitas pelo voto popular, preencher esse local conquistado através de décadas de lutas!
________________________________________________________________
Link da Imagem:

Gratidão!