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A ESTÁTUA DA CORUJA: O Caso Epstein e a Moral das Elites





Em fins de semana de 2011 a 2015, durante a madrugada, assisti documentários com teorias da conspiração, pelo YouTube. Era divertido ver o “Irmão Rubens” falando sobre os Illuminati e atacando a Nova Ordem Mundial. A eloquência discursiva e a maneira atraente de encadear pensamentos me prendia na tela das 23 horas até às 6 da manhã. Cervejas, vinho e petiscos faziam esses momentos ainda mais especiais e interessantes. Rubens, com frequência, citava Alex Jones, controvertido jornalista estadunidense, condenado a pagar 4,1 milhões de dólares (mais de 21 milhões de reais) por afirmar que o massacre na escola Sandy Hooks teria sido um teatro encenado sob a coordenação do governo dos Estados Unidos da América (EUA).


Um ponto alto das “profecias” de Rubens era a relação entre o Bohemian Grove e a ordem econômica mundial. Isso me parecia delírio conspiratório. Contudo, se inicialmente um grupo de jornalistas, músicos e artistas fundou o clube em 1872, por volta do final do século XIX, essa agremiação passou a incluir líderes políticos, financistas e empresários. Trata-se de um ponto de mudança na história do Bohemian; criado por intelectuais para fomentar o pensamento crítico, essa sociedade passou a aceitar membros das elites bancária e política, sobretudo dos EUA. Esse detalhe se torna mais interessante quando, em setembro de 1942, o físico Julius Robert Oppenheimer (1904-1967) atendeu a um convite e discutiu o Projeto Manhatan – que culminaria na bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki – nas dependências dos 1.100 hectares do Grove. Estamos falando do evento que incinerou mais de 70 mil pessoas somente em Hiroshima em um mesmo dia, debatido em segredo e longe do olhar de pessoas comuns. Certamente, por isso, o filme Oppenheimer sequer abordou esse fato histórico.


O momento mais auspicioso das duas semanas de julho ocorre quando homens elitistas, brancos, patriarcais e trajando túnicas vermelhas, azuis e laranjas realizam a Cremation of Care (Cremação do Cuidado). Aos pés de uma coruja de 12 metros, esses senhores cremam uma efígie. A coruja, ícone da sabedoria. A coruja, símbolo daqueles que veem no escuro. A coruja, associada a Moloque. Esse ritual faz referência ao banimento de toda e qualquer angústia dos integrantes, sem qualquer cuidado ou restrição. E também sem a imprensa ou qualquer investigação da mídia. Ora, não poderia ser diferente: os magnatas do Quarto Poder também fazem parte do Bohemian.


Entre tantos segredos, um professor de matemática e física da Dalton School adentra ao cenário. Ele não é Bill Gates, Elon Musk, Noam Chomsky, Stephen Hawking, Dalai Lama... Donald Trump. Entretanto, foi amigo ou, no mínimo, esteve bastante próximo de todos estes e de parcela significativa dos filiados do Grove. Estamos falando de Jeffrey Epstein (1953-2019), pedófilo e traficante sexual que comandou uma rede de abuso de menores. Mais de 3 milhões de páginas comprovam as ligações entre os nomes citados e tantos outros, organizados em um sistema conectado a pedofilia, drogas e crimes diversos. Essa extensa e complexa rede conduz personalidades poderosas a Epstein, o provedor de carne humana para os prazeres mais grotescos de quem encara dinheiro apenas como número prosaico.


No íntimo, tínhamos desconfiança. A atuação política dos super-ricos, conduzindo o planeta sob os caminhos do medo, da ignorância, e, mais recentemente, das rage baits – iscas de raiva semeadas nas redes digitais, para engajar o máximo de pessoas, polarizar famílias e monetizar através da indução aos desequilíbrios emocionais – deixou de ser discreta nas últimas duas décadas. As elites têm os seus valores e estamos vendo o quanto eles se distanciam das normas civilizatórias. Agora, porém, temos as provas aos milhões. Qual é o seu teor?



IMAGEM: CBN

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