A GOURMETIZAÇÃO DA (TRANS)MISOGINIA
- Armando Januário

- há 2 horas
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O Ocidente é indigno das mulheres. Essa asserção resulta de um breve olhar para o processo de colonização do Brasil. A Carta de Caminha, o primeiro registro da Invasão Portuguesa, descreve as mulheres indígenas sob uma perspectiva erótica e lasciva, detalhando, minuciosamente, as suas genitálias: “ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha”. Já no primeiro encontro, os europeus olharam para os autênticos donos da terra com intenções distantes de trocas culturais. Na verdade, aquele instante já havia sido inundado pelo impulso primordial de dominar os indígenas, começando pelo controle da sexualidade das mulheres. Se as dimensões psíquicas e socioculturais de indígenas e portugueses face a nudez eram diferentes, na visão desses, era preciso exercer controle, através de uma dialética da sexualidade capaz de provocar conflitos suficientes para legitimar a posse da terra e dos corpos das mulheres que viviam nela. Como resultado, mais de 1.470 povos indígenas foram aniquilados.
Após desestruturar os povos tradicionais, sem, contudo, lucrar tanto quanto a sua ganância exigia, os portugueses voltaram a sua desumanidade para trazer, em navios negreiros, os braços escravizados oriundos de África. O tráfico de africanos logrou maior rendimento à metrópole, diferente dos dividendos locais obtidos com os indígenas. Durante todos os quase 4 séculos de escravidão no último país do mundo a abolir essa prática sórdida, as mulheres negras foram objetificadas para o prazer sexual dos senhores. Os incontáveis estupros serviram para manter a estrutura escravagista, colonizando os corpos através de estigmas, a exemplo da “mulata”, precursora da mulher que teria “a cor do pecado”. Reduzidas a não-pessoas, as mulheres negras eram constantemente submetidas a estupros, inclusive para a iniciação sexual dos filhos dos senhores. Os seus próprios úteros eram também posse do senhor; a prole lhe servia como braço de trabalho, confiscado para também ser escravizado. E mesmo durante a amamentação, essas mulheres, por vezes, eram forçadas a deixar os filhos de lado, para servir como amas de leite aos filhos dos senhores. Mesmo negros alforriados postulantes a cargos públicos ou religiosos tinham que escrever ao imperador, afirmando ter bons antecedentes e pedindo dispensa do “defeito de cor”. Na prática, como tão bem escreveu Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra integrante da Academia Brasileira de Letras, esse ato era reconhecer a própria cor como defeito biológico e pedir desculpas por isso, para ascender socialmente no Brasil Colônia.
Pelo exposto, vemos o dispositivo de raça operar no Brasil desde a chegada portuguesa, em 1500 e se tornar uma estrutura definitiva através do racismo. Desumanizar pessoas negras se constituiu enquanto uma passage à l’acte (passagem ao ato), conceito encontrado na psicanálise lacaniana: uma disrupção, na qual o sujeito, incapaz de elaborar a sua angústia, recorre a uma ação impulsiva e violenta, se desvencilhando do Outro. Essa é a essência da passagem ao ato racista: promover ideologias de desumanização, através de atitudes concretas para destruir, por todos os meios possíveis. A disposição em colocar a população negra no não-ser e no não-lugar e a persistência em impor o branco como emblema de humanidade, são os mecanismos de operação da passagem ao ato racista. Conforme a filósofa, escritora e ativista antirracista Sueli Carneiro, o dispositivo de racialidade utiliza um saber-poder idêntico àquele proposto por Michel Foucault, para hierarquizar as raças. Nessa perspectiva, a colonização avança sobre a cultura negra, para invalidar e destruir o seu arcabouço de saberes.
Na atualidade, o avanço dos grupos masculinistas representa uma roupagem de ares novos, todavia, com objetivos semelhantes dos colonizadores de outrora: subalternizar as mulheres. Essas hordas de criminosos digitais iniciaram suas atividades em comunidades e fóruns fechados e sigilosos, na dark web e na deep web. A partir dos anos 2010, houve uma evolução na forma de comunicar a (trans)misoginia: de postagens sigilosas, os conteúdos passaram a memes, podcasts e vídeos curtos que viralizaram. O ódio escondido, inaceitável para a sociedade e antes camuflado, veio à tona e migrou para a surface web, a internet visível. Em forma de piadas, a (trans)misoginia se tornou pop e o seu conteúdo, incrementado com frases atrativas e impulsionado pelos algoritmos – que costumam engajar ódios, radicalismos, polêmicas e conflitos – chegou aos jovens, estendendo o seu raio de ação. Agora, já era possível falar abertamente sobre o conceito de red pill: homens que tomaram a pílula vermelha, e, como no filme “Matrix”, chegaram a compreensão de uma suposta realidade. Nela, eles teriam compreendido as mulheres enquanto inimigas, troféus e mesmo a caça a ser abatida. Essa (trans)misoginia respingou em todos os homens que recusam a canalhice dessa ideologia: eles são chamados de blue pill, haja vista supostamente terem tomado a pílula azul; portanto, não teriam acordado, ainda acreditando em igualdade de gênero, igualdade de raça e experiências relacionais baseadas no amor.
Não obstante, o red pill está longe de ser o único grupo a difundir ódio contra as mulheres. Na prática, ele é parte da manosfera, autêntica comunhão digital, formada por um conglomerado de outros grupos, repletos de agressividades contra as mulheres. Estamos falando de um verdadeiro ecossistema digital, integrado a partir de discursos de ódio; nele, podem ser encontrados, além dos red pills, Incells e MGTOWS, com ressentimentos e radicalizações que se interconectam, legitimando o desejo de colonizar as mulheres, em uma perspectiva análoga a dos portugueses quando invadiram o Brasil. Se esses utilizaram o discurso religioso para legitimar suas práticas supremacistas, aqueles apelam para a crise do patriarcado como responsabilidade das mulheres. Em sua visão, elas deveriam ser submetidas a inferioridade que lhes é inerente, haja vista supostamente terem roubado a virilidade dos homens. O homem alpha desses grupos é similar ao colonizador português: branco, cisgênero, heterossexual, cristofascista e violento com todas as minorias sociais.
O estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro é mais uma etapa de atuação desses bandos digitais. Existe uma série de discursos de ódio irradiados pelas redes (anti)sociais. Ali, a violência é processada, manuseada e reiteradamente servida com sabores de brincadeiras agradáveis. Chama à atenção que entre os estupradores da adolescente, dois eram seus colegas. Isso demonstra o quanto essas redes têm se incrustado nas escolas e direcionado contra elas toda sua ferocidade. Tal fenômeno é mundial e comprova que o aumento do conservadorismo trouxe consigo impulsos anticulturais. Nesse front, as escolas estão sob ataque, haja vista representar centros de aquisição do conhecimento e da criticidade, justamente tudo aquilo que os movimentos masculinistas mais odeiam. Ademais, essa onda de ira envolve o aumento de estupros virtuais, ainda subnotificados, porquanto as vítimas, ao serem alvo das agressões, não compreendem que entre os artifícios utilizados, são levadas a, por exemplo, se masturbar em frente às telas.
Se a ganância dos colonizadores não se contentou em explorar os indígenas, passando também aos negros, o masculinismo é eclético em agredir outros grupos, não reduzindo a sua ação contra mulheres cis. O Brasil segue líder pelo 18º ano consecutivo em assassinatos contra travestis e mulheres transexuais. O pensamento masculinista engrossa os ataques contra esse grupo social, ao evocar o que considera ser o legítimo ordenamento natural, a partir do genital de nascimento. Nos grupos online, postagens tripudiando das identidades de gênero travesti e transexual são comuns, com frequente reafirmação do determinismo biológico, para assegurar um suposto cenário no qual papeis de gênero seriam imutáveis. Em paralelo, políticos com frases transfóbicas são elogiados e até mesmo chamados de “heróis”. Percebe-se que a violência contra as mulheres cis, travestis e mulheres transexuais recorre ao apagamento da categoria mulher, para legitimar agressões domésticas, estupros e marginalização. A dimensão desse modus operandi ficou perceptível na fala do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, contra a deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP). Ele foi claro ao afirmar que “ela não é mulher” e por isso, não poderia presidir a Comissão da Mulher. Daí, definiu os requisitos para ser uma mulher, apontando para a anatomia que ele acredita ser do corpo da deputada. Foi mais além: determinou que uma mulher precisa menstruar, para ser uma mulher. O apresentador extrapolou os ataques contra as travestis e mulheres transexuais, indo também contra mulheres cis em menopausa, que passaram por histerectomia ou que tenham nascido com agenesia vaginal. A fala repercutiu nas redes e a estratégia masculinista deu resultados: observou-se mulheres cis – apoiadas por homens masculinistas – concordando com o apresentador, enquanto reforçavam os ataques contra Erika. Tal apoio não parece mera coincidência: em dezembro de 2025, Erika Hilton protocolou um projeto de lei (PL 6075/2025) para proibir a monetização de conteúdos digitais misóginos, explicitando a ideologia supremacista masculina red pill. Pelo visto, a real possibilidade de uma lei ser aprovada para cortar recursos financeiros, serviu para os grupos masculinistas pressionarem seus representantes midiáticos, resultando na fala transfóbica de Ratinho.
Racismo, transfobia e misoginia constituem o pacto colonial. Em uma perspectiva histórica, ontem, esse acordo elitista se organizou para subalternizar e matar abertamente os corpos de quem era considerado inferior. Na atualidade, esse arranjo infame segue se reorganizando, com instrumentos mais sofisticados, para colonizar mentes. Em ano de eleições, o neoconservadorismo vai fazer todo o possível para assegurar maioria de dois terços no Senado e com isso, avançar sobre a Suprema Corte. A Inteligência Artificial (IA), com uso de deepfakes, já é uma realidade e será utilizada para atingir as metas de quem não suportou a derrota em 2022. Por outro lado, a mesma IA também é uma aliada para levar informação qualificada e verdadeira. O mais importante será escolher representantes políticos comprometidos com letramento de gênero, sexualidade e raça. Retirar conteúdos masculinistas viralizados é muito pouco. O cerne da questão é desenvolver consciência crítica para discernir o perigo fomentado pelos mestres do ódio, antecipando seus ataques.
FONTE:
IMAGEM: Portal Juninho Brito

Gratidão, Soteroprosa