A TRANSFOBIA DE J.K.ROWLING: Devemos Boicotar Harry Potter?

Está marcada para o próximo Natal a estreia da série “Harry Potter” na HBO, sobre o jovem bruxo e sua turma, numa adaptação, em sua primeira temporada, da obra “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, contando com 8 episódios. A segunda temporada já foi garantida, o que traz a certeza do sucesso. No entanto, desde que a série foi anunciada, o público vem se dividindo. Enquanto fãs estão ansiosos, ativistas dos direitos LGBTQIA+ denunciam a transfobia de Rowling, autora dos livros sobre Potter, e clamam veto à produção. Esse imbróglio atiça mais uma vez a velha polêmica sobre autor e obra fazerem, ou não, parte da mesma composição. Afinal, ambos se confundem, ou não devem se confundir?
Rowling não é apenas famosa por ser a criadora do universo Harry Potter, mas por também ser declaradamente contra a inclusão de mulheres trans em pautas sobre política de gênero. Em abril de 2025, ela comemorou em suas redes, fumando charuto e bebendo whisky, uma decisão da Suprema Côrte Britânica que definiu legalmente que o conceito de mulher deve se basear apenas no caráter biológico - um senhor revés em termos de combate à discriminação de gênero. A resolução foi tomada após o grupo feminista escocês For Women Scotland entrar com uma ação. Com a sentença, mulheres trans poderiam ser vetadas em espaços exclusivos para o público feminino. Rowling financia o FWS e outras entidades congêneres, o que gera revolta de ativistas e a solicitação de boicote à produção da HBO.
No último mês de julho, a Anistia Internacional havia incluído uma ONG patrocinada por Rowling - Beira's Place - num relatório de entidades "anti-direitos". Essa organização atende mulheres vítimas de violência sexual, na Escócia. Detalhe: mulheres cisgênero, o que indicaria uma tendência trans-excludente. A escritora protestou e a AI pediu desculpas, retirando a ONG do relatório. Ainda em julho, a escritora publicou uma foto da podcaster trans Freda Wallace, numa convenção, se referindo a ela com nome masculino de nascença (algo constrangedor pra quem faz essa referência) - também conhecido como "nome morto" - no X, vestida de minissaia. Rowling usou termos etaristas e acusou Freda de estar evidenciando o "pênis feminino" ao usar aquele vestuário. Freda havia recusado debater com a JK, e essa não gostou, expondo a podcaster. Dá pra notar o quanto ela é obcecada em admoestar transgêneros. Essas ações já deviam estar sendo mais debatidas por juristas e parlamentares britânicos.
Há alguns meses, assisti a um vídeo do canal “Meteoro Brasil” que discutia sobre esse assunto, com mote em debater se a série deveria sofrer embargos da audiência e se autor e obra devem estar imbricados. Concluíram que a autora ganha dinheiro vendendo os direitos da obra e, com ele, financia o ataque às mulheres trans. Com isso, segundo os mediadores do canal, faria sentido a série ser boicotada (e não apenas a série mais outros produtos ligados ao jovem mago). O argumento, portanto, está ligado aos recursos gerados pela audiência, levando à potencialização da prática discriminatória, e não exatamente que o conteúdo da obra teria necessariamente a ver com a vida de quem a produz. Uma das debatedoras desse vídeo, inclusive, é uma mulher trans, Sofia Labanca.
Visto por esse prisma, é até plausível a defesa do boicote. De acordo com as leis britânicas, é penalizado crimes de assédio, violência, ou agressão verbal a transgêneros, mas ajudar financeiramente institutos que defendem a causa das mulheres, mesmo excluindo as trans, não é. Seria mais producente um modo legal de multar quem contribuísse para politicas de exclusão de pessoas trans, e assim, abocanhar uma boa porcentagem da fortuna de Rowling para atender os atingidos. Porque é complicado deixar de acompanhar boas histórias, que não tem nada a ver com a observação de mundo de quem as gera, em função de uma causa. E se tratando de público juvenil, grande parte dos consumidores desse material, mais lamentável ainda.
E se isso atinge todas as matizes ideológicas? O criador da Mulher Maravilha, por exemplo, o psicólogo William Moulton Marston sofreu perseguições da sociedade conservadora da década de 1940, não apenas pelos quadrinhos considerados transgressores, já que algumas histórias envolvendo a heroína amarrada e constantemente utilizando laços, levou muitos a relacionar a obra com práticas sadomasoquistas e fetichistas, mas também por sua vida conjugal. Ele vivia num trisal com sua esposa e uma ex-aluna. Mesmo Marston não financiando nenhum instituto fetichista ou contra direitos civis de famílias nucleares - em comparação com o caso Rowling - a confusão entre seus princípios conjugais e sua arte foi suficiente para boicotarem as revistas de sua autoria. Parte de sua biografia matrimonial é contada no filme “Professor Marston e as Mulheres Maravilhas”, na Netflix.
Também já escrevi sobre isso anteriormente (Artista e obra se confundem?Ou é possível separá-los?Opinião), quando muitos ouvintes solicitaram à diversas rádios a não execução das músicas de Michael Jackson após o lançamento do documentário “Leaving Neverland”, onde dois homens revelam detalhes sobre o abuso que sofreram do artista, quando crianças. Nesse artigo, deixei claro que não se combate pedofilia cancelando a discografia de um compositor, mas que qualquer um que sofreu um abuso desse tipo ficaria desconfortável ao ouvir suas músicas, assim como uma pessoa trans fã de Harry Potter fica num terrível dilema.
Sou muito mais favorável a ações que possam atingir o autor com penalização financeira do que propriamente um boicote, que só faz afastar o admirador de um personagem, inserido num universo lúdico que nada tem a ver com as polêmicas de seu gerador (a não ser que a próxima vilã seja uma feiticeira trans...). É preciso também observar a posição da Suprema Côrte, que deu a palavra final sobre o tema. Se a justiça não contribui pra isso, alimenta as ações de pessoas como Rowling. Portanto, não se deve apenas focar no ideário controverso do autor, já que as análises do próprio Supremo britânico precisam ser escrutinadas. Não tenho qualquer conhecimento sobre Harry Potter, jamais assisti ou li qualquer coisa. Mas adianto: Se simpatizante fosse, assistiria a série sem problemas. Por outro lado, continuaria denunciando a transfobia de Rowling, afim de que as leis de gênero fossem revistas.
FONTE:


Infelizmente, essa autora se dedica a transfobia. Excelente texto! Gratidão!