AFETO E PRODUTIVIDADE: tensões no campo do desejo
- Kaihany Assis

- 14 de abr.
- 4 min de leitura

Há um tipo de cansaço que não se resolve com sono. Ele se instala mais fundo, no campo invisível onde o desejo costuma nascer. Não é apenas o corpo que se esgota, mas a capacidade de se implicar, de se abrir, de sustentar a presença do outro. Nesse estado, amar deixa de ser um gesto espontâneo. Passa a exigir energia.
Isso não significa que o amor deva ser isento de esforço, mas que talvez haja uma diferença entre o esforço que sustenta e aquele que esgota. Nem todo investimento vitaliza. Alguns apenas mantêm em funcionamento aquilo que perdeu o fôlego.
Antes de tudo isso, porém, talvez seja preciso tocar na pergunta mais simples e mais difícil: o que é o amor?
Talvez não haja uma resposta estável. E talvez o risco comece justamente quando acreditamos que há um modo correto de amar, passível de ser aprendido, reproduzido e aperfeiçoado.
Fora da lógica do neoliberalismo, o amor não se organiza como tarefa nem como desempenho. Ele não se mede, não se otimiza, não se corrige em planilhas invisíveis. O amor é um acontecimento. Algo que atravessa, que desloca, que não se deixa controlar por completo.
A psicanálise nos lembra que amar também é sustentar a falta. É poder estar com o outro sem a urgência de preencher todos os vazios, sem a necessidade de oferecer uma totalidade que não existe.
O que não implica ausência de responsabilidade, mas uma outra forma de presença: menos orientada pela correção constante e mais pela possibilidade de existir, ainda que de maneira incompleta.
Há amor quando o silêncio não ameaça, quando o intervalo não significa abandono, quando não é preciso esconder o próprio cansaço para continuar sendo digno de vínculo.
Mas vivemos sob uma lógica em que tudo precisa produzir. O tempo precisa render, o esforço precisa mostrar resultado, a vida precisa avançar. E, nesse ritmo, o amor, que antes podia ser território de encontro, começa a ser atravessado por exigências
silenciosas. Estar junto já não basta. É preciso ser um bom parceiro, um bom ouvinte, alguém emocionalmente disponível, interessante, estável, consistente, mesmo quando o íntimo já não se organiza.
Não é que o amor não deva ser cuidado, mas talvez ele não sobreviva quando o cuidado se torna vigilância, quando observar deixa de ser um gesto de atenção e passa a ser uma tentativa de antecipar, corrigir ou controlar o outro.
O relacionamento, então, corre o risco de se transformar em mais uma tarefa. Responder mensagens com rapidez, manter o vínculo ativo, demonstrar cuidado constante. Pequenas ausências passam a ser interpretadas como falhas. Pequenos
silêncios, como desinteresse. E o que antes era espaço de descanso torna-se mais uma fonte de tensão.
Isso não elimina a necessidade de presença, nem dissolve o compromisso. Mas desloca a questão: talvez não se trate de estar sempre disponível, e sim de como se está quando se pode estar.
É assim que o neoliberalismo se infiltra no íntimo. Ele não atua apenas no trabalho, mas molda a forma como nos percebemos e como nos oferecemos ao outro. Surge uma subjetividade que precisa estar sempre à altura, sempre funcional. Amar, nesse cenário, torna-se mais uma performance.
E como toda performance, corre o risco de afastar justamente aquilo que tenta garantir: a experiência viva do encontro, com suas falhas, pausas e desencontros.
E há algo de profundamente solitário nisso.
Porque, mesmo acompanhado, o sujeito pode se sentir só quando acredita que precisa sustentar, sozinho, a imagem de alguém que não falha.
Talvez estejamos tão cansados porque fomos ensinados a transformar tudo em projeto, inclusive nós mesmos. Viver deixou de ser apenas viver e passou a ser uma gestão contínua de tempo, de emoções, de relações. Há sempre algo a melhorar, algo a ajustar, algo a corrigir. E essa vigilância constante consome uma energia silenciosa. Cansa não só o corpo, mas o próprio desejo.
E o desejo não floresce sob pressão constante. Ele precisa de intervalo, de respiro, de um certo vazio. Mas o mundo contemporâneo parece temer esse vazio. Preenche tudo com urgência, com estímulo, com cobrança.
Ainda assim, o desejo não é apenas frágil. Ele também insiste, contorna, reaparece.
Ainda assim, há uma fresta.
O amor pode ser repouso. Mas não o amor capturado pela lógica da performance. Não o amor que exige provas constantes de presença, que transforma qualquer silêncio em ameaça, que mede o afeto pela frequência das respostas.
O amor como repouso é outro.
Não um repouso idealizado, livre de conflito ou tensão, mas um espaço onde o desgaste não precisa ser escondido para que o vínculo continue existindo.
É aquele que sustenta pausas sem interpretá-las como abandono. Que acolhe o cansaço sem transformá-lo em culpa. Que não disputa com o esgotamento, mas o escuta.
Porque, às vezes, o que parece desinteresse é apenas exaustão.
E o que parece ausência talvez seja apenas o amor, mais quieto, tentando encontrar espaço.
E talvez amar, hoje, seja também aprender a reconhecer essas formas mais discretas de presença, que não se anunciam, mas ainda assim permanecem.
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Fonte/Imagem: Pinterest

Adorei a reflexão!
Perfeito seu texto, falar sobre amor é muito fácil!
Seus textos são maravilhosos, tão poéticos e didáticos ao mesmo tempo...sim o amor é construído com tijolos...um a um...cansamos, descansamos e continuamos... até onde vai a torre? Ninguém sabe...
É de uma delicadeza e sensibilidade extraordinária esse seu texto. É raro encontrar palavras que consigam traduzir com tanta precisão esse peso que carregamos nas relações.
Relacionamento não sendo tarefa!
Excelente o todo e as partes!