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"AS PESSOAS NA SALA DE JANTAR": TariFlávio, Trump e O Toque Satânico


Prático. Dinâmico. Seguro. Criado em 2018 por técnicos do Banco Central (BC), o Pix é a principal forma de pagamento utilizada no Brasil. Conforme o BC, cerca de 80% da população já efetuou uma transação via Pix, desde a sua criação. Trata-se de uma ferramenta bancária que só em janeiro deste ano, foi acionada 7 bilhões de vezes. Tanto sucesso sem qualquer pagamento de impostos para pessoas físicas tem chamado atenção de potências estrangeiras, sobretudo, os Estados Unidos da América (EUA).


Segundo o governo estadunidense, após uma investigação sobre o Brasil, foram verificadas assimetrias nas relações comerciais entre os dois países. Por isso, seria necessário taxar, em 25%, os produtos brasileiros, porquanto o Pix teria sido uma das causas da desigualdade comercial. As palavras de Marco Rúbio, secretário de Estado dos Estados Unidos, chamam à atenção sobre como Washington enxerga nosso país: “é fantástico que, tirando Nicarágua, Cuba, Venezuela e, claro, o Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em alguma medida, a Colômbia, temos uma região cheia de aliados e amigos dos Estados Unidos”. Os EUA estão descontentes com o governo brasileiro, principalmente pela negação deste em ser o lugar onde o Outro goza. Rubio trouxe um recado hostil a um país democrático e soberano: os EUA vão, de forma ampla e deliberada, interferir no processo democrático de todos os países da América Latina.


Se tentarmos conhecer nossos adversários, veremos o porquê da fala de Rubio. Os EUA têm as midterms, eleições de meio de mandato, em novembro. A percepção de mais da metade daquele país sobre a própria economia é amplamente desfavorável ao presidente e seu partido: a campanha militar de Donald Trump contra o Irã custou o aumento do preço do combustível, hoje, US$ 4,60 por galão. Inflação e alta do custo de vida completam o pacote de insatisfações. Como vimos em “As pessoas na sala de jantar”: Luciano Huck, O Bolsa Família e Flávio Bolsonaro, 47 milhões de pessoas nos EUA enfrentam insegurança alimentar, abrindo espaço para o crescimento das intenções de voto em candidaturas do Partido Democrata. Conforme o Financial Times, caso as eleições fossem hoje, os democratas venceriam os republicanos com oito pontos de vantagem, aumentada ainda mais com a entrada dos independentes no jogo político. Trump sabe o quanto essa mudança no tabuleiro político acarretaria eventuais derrotas ao seu projeto. Está em jogo a eleição de 435 membros da Câmara dos Deputados, mais de 30% dos senadores, além de prefeitos, legisladores estaduais, governadores e demais autoridades. Perder implica a necessidade de aumentar o diálogo com a oposição, uma prática que foge das características da ideologia trumpista. Nesse ínterim, tarifar o Brasil, em mais uma decisão unilateral, demonstra o jeito Trump de governar: para ele, os EUA ainda são os donos do mundo e podem determinar o destino dos povos livres da América Latina.


O anúncio desse tarifaço destoa da conversa entre Lula e Trump, em meados de maio. Após mais de três horas conversando a portas fechadas, Trump se referiu a Lula como um “cara inteligente” e um “bom homem”. Entretanto, diante da iminente tarifação, parece haver uma guinada referente as relações econômicas com o Brasil. Tudo isso após uma visita de Flávio Bolsonaro a Casa Branca. O filho 01 de Jair Bolsonaro manteve a agenda em segredo, confirmando sua ida a Washington apenas no último momento. Com ele, estavam Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo. À imprensa brasileira, o 01 admitiu ter solicitado a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Flávio Bolsonaro admitiu ainda ter conversado com Trump sobre as terras raras e sobre tarifas. Perguntado se pediu aumento de taxações contra o Brasil, o candidato da extrema direita nega, veementemente. Mesmo assim, soa estranho um candidato à Presidência da República ter uma audiência com a maior economia do mundo e solicitar medidas, como se ele mesmo já fosse presidente. Isso não passou despercebido para uma parcela considerável da população.


Segundo a pesquisa Quaest, 47% das pessoas entrevistadas reconhecem que Flávio Bolsonaro pediu a Trump o tarifaço contra o Brasil. Isso se traduz no apelido consagrado a ele pelas redes digitais: Tariflávio. Como se fosse pouco ter que explicar a população seu vínculo com Daniel Vorcaro, Flavinho Pinóquiocomo ele é chamado pelo deputado federal Otoni de Paula (PSD) – já é reconhecido como traidor da pátria e terá que lutar em pelo menos duas frentes: apagar o incêndio da sua relação com Vorcaro e desfazer a ideia de ter traído a população brasileira. Os dois desafios são imensos, sobretudo, após o seu irmão, Eduardo Bolsonaro, sugerir a troca do Pix pelo Zelle, sistema de pagamento capitaneado por um conglomerado de bancos privados estadunidenses. Pelo visto, não foi suficiente, em ano de eleições, levantar suspeitas plausíveis sobre ser entreguista. Em uma demonstração de como é ser cãozinho de estimação dos ianques, os Bolsonaro pretendem trocar um sistema instantâneo de pagamentos, disponível 24 horas por dia e 7 dias por semana, gratuito para pessoas físicas e operado em todos os bancos nacionais, por um sistema privado, mais lento – pode levar horas ou até mesmo dias para executar uma transferência bancária – e concentrado na mão de uma rede privada de bancos. O ponto em questão parece ser a fluidez do Pix, uma clara ameaça ao Visa e Mastercard, empresas estadunidenses. Nessa perspectiva, começamos a desvendar as raízes do entreguismo bolsonarista: dar o sistema do Pix ao colonizador é entregar o controle sobre operações financeiras capazes de fazer frente e mesmo ultrapassar em volume de capitais a liquidação das operações financeiras em solo nacional, e, posteriormente, até mesmo no comércio exterior. Esse aspecto do entreguismo de Tariflávio, se é analisado pelas mídias nacionais, ocorre em escala mínima, mesmo entre os meios progressistas.


Ora, a maioria dos países liquida suas operações comerciais em dólares, e por isso, buscam, freneticamente, ser superavitários nessa moeda. O Pix pode representar, no médio prazo, uma quebra desse paradigma: o Brasil liquidaria suas transações externas em reais ou ainda em uma moeda criada para atender os países da América Latina. Nesse ínterim, o aspecto da segurança pública também ganha protagonismo. Diferente do Zelle, o Pix exige localização e permite o rastreamento de dados, características fundamentais na luta contra o narcotráfico. Além de uma simples transação bancária, o Pix possibilita ao poder público investigar o fluxo de capitais e detectar operações suspeitas. Sabendo que facções como CV e PCC adquirem armas contrabandeadas dos EUA, como ficaria a configuração do narcotráfico? Ao que parece, Trump pensou nisso e percebeu a ameaça do projeto nacional- desenvolvimentista do governo Lula. Descontente com a habilidade política do filho de dona Lindu, o Laranjão recorre a familícia Bolsonaro, capachos por natureza, para trucidar a soberania nacional. Ele apoia e se aproveita do Círculo de Fogo que a extrema direita vem fazendo ao redor do Brasil na América Latina, com a eleição de presidentes alinhados com seu projeto. Trump também parece inquieto pela desdolarização das transações comerciais. Os juros estadunidenses, antes elogiados por sua longevidade de até 30 anos, começam a encontrar a desconfiança do sistema financeiro. Países como Japão e China, credores históricos do dólar, estão sistematicamente trocando a moeda pelo ouro. Esse quadro preocupante para os EUA também acendeu o alerta para os seus lacaios brasileiros pertencentes a segmentos das elites. Afinal, como seria para os EUA, caso o Pix se torne um

meio de pagamento nas relações comerciais entre todos os países da América Latina? Mais ainda: como seria para os EUA, caso o Pix se torne um meio de pagamento nas relações comerciais entre todos os países da América Latina, utilizando uma moeda própria e não o dólar? Goodbye, American way of life...


As elites econômica e financeira do Brasil tem um histórico pacto com sua porta-voz, a classe média. No afã de se manter no poder, aquela prolonga o pacto escravagista, ainda que a escravidão tenha sido oficialmente abolida. Sua principal técnica é demonizar o Estado, através de uma constante incriminação dos programas sociais. Nosso artigo “As Pessoas na Sala de Jantar”: Luciano Huck, O Bolsa Família e Flávio Bolsonaro comprovou esse método. Vimos isso nas eleições de 2018, quando a Operação Lava-Jato foi utilizada, para, sem provas cabais, chegar ao extremo de rasgar a Constituição e prender Lula, com o claro objetivo de manter a hegemonia do mercado financeiro, às custas do sofrimento dos pobres. Eis o “toque satânico” das elites econômicas e financeiras do Brasil: (1) demonizar o Estado como o grande promotor da corrupção – sobretudo, quando as próprias políticas de Estado priorizam mulheres, negros, pessoas LGBTQIAPN+ e demais grupos alvo de histórica perseguição e violência –; (2) desqualificar a política para desviar o foco da sociedade acerca da herança escravagista; e (3) manipular a classe média, utilizando discursos sobre a corrupção da classe política, enquanto esconde o rombo causado pela renúncia fiscal em favor dos bancos, como resultado da pressão feita pelas mesmas elites financeiras sobre o Governo Federal. A essas três táticas, Jessé Souza, sociólogo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), acrescenta nas obras A Elite do Atraso: da escravidão a Lava-Jato (2017) e A Elite do Atraso: da escravidão a Bolsonaro (2019), o sequestro da fé. Os discursos religiosos-moralistas monopolizaram as visões da sociedade: votar em Lula seria votar no Mal e deixar Satanás governar o Brasil, ao passo que votar em Bolsonaro é votar em Deus e dar boas-vindas à Jesus Cristo. Essa visão maniqueísta incentivada pela extrema direita tem contribuído para o aumento do racismo religioso, em ataques diretos às religiões de matriz africana. Não menos grave, serve também para cegar a população quanto a uma crítica social profunda, segregar famílias e polarizar as redes.


O grupo de nababos que se locupleta há gerações no centro do capitalismo nacional, entretanto, não esperava a vitória da democracia em 2022. Preocupado com a repercussão do estreito vínculo Tariflávio-Vorcaro sobre as intenções de voto, chegou a ponto de inviabilizar a divulgação da pesquisa AtlasIntel, na qual Lula aparecia com larga vantagem frente ao candidato fascista. A liminar concedida pelo ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo então presidente Jair Bolsonaro – é demonstração clara de censura. Pior: representa uma proteção aos Bolsonaro, em um ataque à liberdade de informação.


Enquanto isso, “as pessoas na sala de jantar” seguem ocupadas em festas cafonas, divulgação de fake news e escândalos familiares com membros envolvidos em drogas, estupros, violência contra as mulheres e encobrimento moralista da própria sexualidade. O deputado federal André Fernandes (PL-CE) que o diga. Mas, nós, deixamos o status de pessoas de segunda categoria e seguiremos lutando e provando que além de jantar, temos direito a tomar café da manhã, almoçar, estudar... e sonhar!


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Imagens retiradas do banco de imagem Pexels.com

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