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BAD BUNNY, GEOLOCALIZAÇÃO, E O MAPA EMOCIONAL DO NOSSO TEMPO





Há shows que são apenas músicas. Outros são aulas. A apresentação de Bad Bunny no palco do Super Bowl foi mais do que um espetáculo pop. Funcionou como uma verdadeira aula de geolocalização, não apenas no sentido físico, mas afetivo, cultural e político. Em um mundo fragmentado por fronteiras, algoritmos e discursos de exclusão, o artista porto-riquenho sobe ao palco como quem redesenha o mapa. O centro não é mais um país, uma língua ou um poder. O centro é a experiência humana compartilhada.

 

Cantando em espanhol e lotando, ele produz um deslocamento simbólico importante. Durante décadas, a indústria cultural insistiu que o sucesso global precisava falar inglês, vestir padrões específicos e suavizar suas origens. Benito Martínez faz o caminho oposto. Leva o sotaque e a sensibilidade latina para o centro do palco.

 

Mas todo mapa também revela tensões.

 

O presidente Donald Trump se posicionou publicamente contra o artista, associando sua imagem a uma cultura que rejeita. A crítica pode parecer apenas política ou ideológica, mas, sob o olhar da psicanálise, ela aponta para algo mais profundo: o ressentimento.

 

Na psicanálise, o ressentimento nasce quando alguém se sente deslocado de um lugar que acreditava ser seu por direito. É a dor transformada em hostilidade. Em vez de elaborar a perda de poder, de centralidade ou de reconhecimento, projeta-se a frustração no outro, que passa a ser visto como ameaça.

 

O que esse fenômeno parece representar é justamente aquilo que o ressentimento teme: um mundo em que o centro se descentraliza. Um mundo multilíngue, multicultural e emocionalmente mais aberto. Um mundo onde diferentes culturas e formas de existir ocupam espaço sem pedir permissão.

 

O ressentimento tenta restaurar um passado idealizado. Mas há um custo psíquico e social nisso.

 

Quando ele se transforma em discurso público, todos perdem. Perde-se a curiosidade. Perde-se a escuta. Perde-se a possibilidade de convivência com a diferença. O mundo fica menor, mais rígido e mais defensivo.

 

E é exatamente o contrário que a experiência coletiva da música produz.

 

Ali surge algo importante: reconhecimento. Pessoas diferentes se veem umas nas outras. Cantam dores semelhantes, desejos semelhantes, saudades semelhantes. A arte se torna um espaço de elaboração, aquilo que a psicanálise descreve como a transformação da experiência em algo compartilhável.

 

O espetáculo não foi apenas um show, mas uma declaração de amor e identidade.

 

Ao receber um prêmio no Grammy, o cantor resumiu esse espírito em uma frase simples e poderosa: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”. A fala, em um contexto marcado por tensões culturais e políticas, reforçou um apelo por empatia e menos polarização.

 

No palco, essa ideia ganhou forma concreta, como um abraço simbólico que atravessa línguas e geografias. Mais do que entretenimento, a apresentação se tornou um gesto público de afeto e pertencimento. Um ato de amor à América Latina, à sua cultura, à sua sensibilidade e à sua força. Nesse encontro entre arte e emoção, o que se viu foi a afirmação de uma humanidade compartilhada, cada vez mais presente no mapa emocional do mundo.

 

Enquanto o ressentimento fixa o sujeito no passado, a cultura abre passagem para o futuro.

 

E, no fundo, a grande lição de geolocalização é simples.

 

Mover-se junto com esse novo centro é um gesto de humanidade. Um centro que já não está preso a um único país, língua ou padrão, mas que se expande para incluir outras vozes, outros ritmos e outras formas de existir. É reconhecer que a cultura floresce quando acolhe, que a identidade se fortalece quando é celebrada e que o mundo se torna maior quando aprendemos a olhar para o outro com curiosidade, respeito e afeto.



IMAGEM: wlrn.org

6 comentários

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Maurilio A Santos
há uma hora
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente texto, parabéns!!! Expressa muito bem o que eu sinto...

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Kauan
há uma hora
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente texto e choque de realidade para a sociedade 👏🏻

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Convidado:
há 2 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Perfeito seu texto, Kay! Benito nos faz crer que somos e estamos ligados culturalmente! Mais amor e menos polarização!

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Convidado:
há 4 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Parabéns! 👏👏

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Jacqueline Gama
há 4 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Me emocionei com o show do Bad Bunny, cheios de símbolos culturais que une a América Latina assim como sua música.

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