top of page

MEU DIALETO É BARRIL!







A nossa língua, ou melhor dizendo nosso dialeto, o famoso baianês, serviria como um belo enredo de novela. Não diria das novelas feitas no eixo sul/sudeste do Brasil, todas as tentativas ali saíram, ao meu ver, demasiadamente caricatas. O baianês também nos serve como um código trabalhado e bem tramado contra forasteiros que possam vir a querer nos enrolar (lá ele!) ou poderíamos dizer, um palco de grandes espetáculos gramaticais e gestuais.


Se para a defesa pessoal temos a capoeira, com tanto gingado, na fala criamos o nosso potente dialeto cheio de puntadas, queixadas, meia luas de frente, armadas e aus.


Obviamente outras tantas línguas passam por tudo o que a nossa adorável língua portuguesa passa, com contrações e adaptações, mas temos tantas peculiaridades que dificilmente existirá complexidade maior. Para início de conversa, a Bahia é um pequeno país dentro de um país. Somos desconhecidos por conterrâneos da nossa própria nação que quando tentam imitar nosso baianês escorregam feio nos clichês, no tempo da pronúncia, na expressão utilizada para cada palavra e detalhes peculiares demais.


Peregrinando mundo a fora, eu já tive a oportunidade de me deparar com dialetos mil, e pude experimentar o que é realmente "tá campado" me sentindo um grande "bufa fria". Trabalhando na colheita de frutas nos campos do interior da Comunidade Valenciana na Espanha, por exemplo, fui, pela primeira vez tentar comprar pão na padaria e entrei na fila do estabelecimento admirando as variedades e o cheiro que tomava o local. Ao me aproximar do balcão, percebi que ninguém pedia pão utilizando o habitual "dame un pan" do castelhano oficial. Aquilo me deixou intrigado, e quanto mais se aproximava a minha vez de pedir mais aflito eu ficava. Tentei repetir internamente uma frase que todos que pediam na fila recebiam seu pão, mas eu não me senti seguro para pronunciar aquilo. A cara do "fulero" que estava despachando era de poucos amigos. Resultado: voltei para casa. Repeti durante a noite uma frase em valenciano/catalã que era mais ou menos assim: "Vull un pa" e uma semana depois eu consegui que o "chibungo" do atendente entendesse o que eu queria, ou pelo menos tivesse boa vontade de entender.


O nível de dificuldade em se entender dialetos ou até mesmo línguas oficiais de um país pode variar e muito. Os chineses, por exemplo, dirão que suas tantas línguas entre o oficial mandarim e não oficiais como o cantonês e o hokkien os credenciam no primeiro posto. Os alemães, com sua gramática minuciosa e detalhista, falarão de complexidade beirando uma certa redundância, onde para um armário, dependendo de qual posição e profundidade ele possua, existirá uma palavra que irá defini-lo. Os espanhóis e suas rachaduras internas históricas nos apresentarão os oficiais castelhano e o catalão, que é também uma língua oficial não só na Espanha, com sua importância na famosa guerra civil contra o fascismo de Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde, mais conhecido como Francisco Franco, que dividiu e destruiu famílias (fascismo é fascismo em todo lugar), o balear valenciano (conhecido também como sinônimo da língua catalã), a histórica, ancestral e um tanto desconhecida língua basca ou Euskal, e por aí vai.


Mas, na terra dos que se arriscam "largar" "di boa" um "naonde?", ser complexo, inicialmente, leva um quê de criativo e sonoro.


Quando adolescente, me lembro de ouvir pela primeira vez a palavra "cundéquenão" proferida por um conhecido que morava no mesmo interior que eu à época (Pojuca, na Bahia). Era apenas uma criança que deveria ter seus 12 anos e já tinha aprendido, desde cedo, a modificar ou tentar encurtar caminhos para poder se expressar melhor ou mais rápido. Cundéquenão, traduzido desse criativo dialeto que possuímos, é algo como: "de repente", "sem que eu esperasse", "repentinamente". Atentos percebemos que não se encurtou nada, foi apenas um show de criatividade e junção de palavras para a invenção de uma comunicação original, regional, de certa forma, divertida e musical.


Certa vez uma professora de língua portuguesa que lecionava em um colégio público desse mesmo interior, em conversa comigo sobre este assunto me disse que tais "dialetos" eram fruto de vícios de linguagem. Seus alunos, por exemplo, sabiam como falar palavras do português corretamente, mas insistiam em utilizá-las da forma incorreta por escutarem isso em casa, dos pais, avós, nas suas comunidades ou de outros que pronunciavam incorretamente por não terem sido alfabetizados. Uma questão de afirmação, de pertencimento ou algo assim.


Em todo canto, falar em dialetos é na realidade uma forma de se afirmar, de se identificar com o local de origem, de convívio. Certamente para uma grande parcela da população baiana, por exemplo, estranho é ouvir um juiz ou um advogado falando em latim para explicar o desfecho de um processo. Mas se um desses puxar um "ispie só" ou um "se ligue" obviamente terá de imediato a atenção e entendimento que deseja.


Voltando àquela conversa de Bahia país dentro de um país, é preciso deixar claro que quando falamos de baianês não estamos falando do dialeto que se fala exclusivamente em Salvador. Este dialeto, proferido na capital, tem um perfil infinitamente diferente do que notamos no sul do estado, oeste, norte ou mesmo em cidades do recôncavo baiano. São derivações que correspondem a diferença cultural, histórica, geológica e até climática de cada região. Se você olhar para o céu lá da cidade de Irecê, na região do seminário baiano, num dia extremamente nublado e com previsão de chuva, e disser: "Porra, o dia tá feio. Vai cair um toró da zorra!" quem estiver por perto pensará: esse infeliz não é daqui. Um filho daquela região diria: "Ei! Que céu bonito de nuvens! Vai chover, moço!".


Resumindo essa “lorota” toda, os dialetos sempre possuem a função de abrir caminhos, facilitar a comunicação, caracterizar e regionalizar o discurso. Seja no largo da Lapinha, no centro da cidade de Cachoeira, em Alginet ou em Pequim, você pode estar a pé, mas a placa de identificação tu leva na fala, “bote fé”.

-------------------------------


* Ramon Argolo é poeta, escritor, compositor e cantor baiano. Instagram: poetaramonargolo


Link da imagem:


Referências


153 visualizações12 comentários

12 Comments

Rated 0 out of 5 stars.
No ratings yet

Add a rating
Rated 5 out of 5 stars.

Texto lindo! Me fez pensar na nossa pluralidade como uma grande riqueza.

Like

Rocson Leão
Rocson Leão
Mar 22, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Parabéns Ramom! Excelente texto!!!

Like
Replying to

Obrigado meu amigo! Fico feliz que tenha gostado.

Like

Alan Rangel
Alan Rangel
Mar 22, 2023
Rated 1 out of 5 stars.

Muito

Like

carlosobsbahia
carlosobsbahia
Mar 22, 2023

De fato,somos um país dentro de outro. Uma nação com linguajares. Ótimo texto

Like
Replying to

"A Bahia é um ensaio do mundo". Ouvi alguém me dizer isso e até hoje guardo essa forma de enxergar nosso estado. É rico de muito realmente. Obrigado!

Like

Robério Brito
Robério Brito
Mar 22, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Ótimo texto, Ramon. Parabéns! A Bahia tem dialetos, cantos e encantos.

Like
Replying to

Obrigado meu amigo! O retorno de vocês me ajudam a entender que eu posso experimentar e ousar mais. Valeu o carinho!

Like
bottom of page