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ENAMED: Entre a Prova e o Compromisso





Os resultados do ENAMED, divulgados nesta semana, reacendem discussões sobre qualidade, responsabilidade e formação médica no país. Proponho um olhar que vá além do desempenho numérico e convido o leitor a pensar o exame como um pacto formativo.


Não se trata apenas de uma prova. Trata-se de um marco simbólico na formação médica brasileira. Mais do que medir conhecimentos técnicos, esse processo avaliativo escancara uma pergunta silenciosa, mas fundamental: que tipo de médico estamos formando e para quem?


Em um país atravessado por desigualdades profundas no acesso à saúde, avaliar a formação médica não é um gesto burocrático. É um ato ético. A iniciativa surge como tentativa de garantir um mínimo comum de qualidade, responsabilidade e compromisso social em um campo onde o erro custa caro, muitas vezes vidas.


Mas nenhuma avaliação se sustenta apenas por sua existência institucional. Ela só cumpre seu papel quando os estudantes compreendem que não se trata de um exame contra eles, e sim com eles. Há uma responsabilidade compartilhada nesse processo. O aluno não é um sujeito passivo diante da prova; é parte ativa da construção do sentido dela.


Levar esse momento avaliativo a sério é reconhecer que a formação médica não termina no diploma, nem se esgota na aprovação. Estudar não é apenas revisar conteúdos. É confrontar lacunas, reconhecer limites, aceitar que a medicina exige atualização constante e humildade intelectual. A prova funciona como um espelho, nem sempre confortável, mas necessário.


Existe também uma dimensão coletiva nessa responsabilidade. Quando um estudante se prepara de forma displicente ou trata a avaliação como irrelevante, não está apenas negligenciando sua própria trajetória, mas fragilizando um esforço maior de qualificação do sistema de saúde. A escolha individual reverbera no todo.


Ser estudante de medicina, nesse contexto, é aceitar que aprender é também um ato de responsabilidade social. E que toda avaliação, quando levada a sério, é uma chance de formar não apenas profissionais mais competentes, mas médicos mais conscientes do lugar que ocupam no mundo.


Vejo que a relevância desse exame nacional está justamente em seu potencial diagnóstico. Ele permite observar tendências, identificar lacunas no ensino e refletir sobre a qualidade da formação, sem reduzir instituições a rankings simplistas. Quando a avaliação se transforma em ameaça, perde sua função pedagógica e compromete o próprio sentido do processo.


Nesse cenário, os estudantes ocupam um lugar central. Não como alvos de cobrança excessiva, mas como sujeitos corresponsáveis pela seriedade da avaliação. Compreender seu papel é entender que o exame não mede apenas conteúdos memorizados, mas o compromisso com a própria formação e com a prática médica futura. A responsabilidade do aluno não é performar para salvar a instituição, e sim se implicar eticamente no processo de avaliação.


Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que os resultados não podem ser usados de forma isolada para julgar cursos e instituições de ensino. A formação médica é atravessada por múltiplos fatores, infraestrutura, acesso a campos de prática e políticas públicas de saúde. Ignorar esse contexto seria transformar uma ferramenta de aprimoramento em um mecanismo injusto de responsabilização.


Esse instrumento deve servir como ponto de partida para o diálogo, não como sentença. Seus dados precisam alimentar políticas de apoio, investimentos e fortalecimento das instituições. Avaliar sem oferecer caminhos de correção é abdicar da função educativa da avaliação.


Assim, quando bem compreendido, esse processo convoca todos os envolvidos, estudantes, instituições e Estado, a um pacto. Entendendo que qualidade não se constrói com punição, mas com responsabilidade compartilhada, escuta qualificada e compromisso contínuo com a educação médica e com a sociedade.



IMAGEM: Sanarmed

9 comentários

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Théo
21 de jan.
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Num cenário em que rankings ou “tops” são tratados de forma superficial como sinônimo de qualidade (para quase tudo), é essencial refletir sobre a importância e responsabilidade, principalmente por parte dos estudantes, diante de exames que realmente cumprem o papel de diagnóstico. Parabéns pelo texto! 👏🏻👏🏻

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Carmélia Assis
20 de jan.
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Cada texto escrito por você, é um ensinamento pra mim. Perfeito garotinha. 👏👏👏

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Júlia
20 de jan.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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Aline
20 de jan.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito coerente !

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Luís
20 de jan.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Perfeito!

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