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ESTOU SENDO NÃO BINÁRIA O SUFICIENTE PARA VOCÊ?





Em um mundo marcado por normativas de gênero (entre tantos outras) as expectativas sobre o que se esperar do figura da homem e do figura do mulhersão muito bem definidas. Mas o que esperar das pessoas não binárias?

Desde antes do nascimento, as (muitas) idealizações sobre uma criança são problemáticas. Uma das que primeiro surge a gente só concretiza no dia do chá revelação. Afinal, é menina ou menino? Se for menina: vai vestir rosa, usar lacinho, botar vestidinhos e, quando já conseguir escrever o nome, vai começar a ser doutrinada para gostar de maquiagem, para rivalizar com as amiguinhas e para sentar corretamente (se os pais tiverem sorte, ela nunca vai descobrir a genital). Se for menino: vai usar azul, brincar com carrinho e ser catequizado para falar que todas as coleguinhas da sala são sua namoradinha (se os pais tiverem sorte, nasce uma menina no mesmo prédio em que moram e com idade próxima para irem à escola juntos e já planejarem o casamento quando chegarem aos… vejamos… 5 anos de idade). Nada de bom para as não bináries desde cedo.


Pessoas não binárias possuem uma identidade de gênero onde não se identificam nem com o gênero feminino e nem com o gênero masculino (ou podem se associar a ambos - liberdade para dentro da cabeça). Fora do binário e da cisnormatividade, o sinônimo de não binário para mim é liberdade e transgressão-mais-que-subversiva.


O prefixo de negação que acompanha o termo representa exatamente a descontentamento com o mundo binário, dividido por cor, roupa, brinquedos e coisas que quase nunca podem (ou deveriam) se misturar. Mas o que eu queria mesmo era uma definição mais autêntica para quem eu sou, que não necessariamente precisasse me associar também ao que me ceifa.


As discussões a respeito do conceito que estou trazendo ainda estão nascendo e, infelizmente, essa identidade ainda não pode ser desassociada do binário, uma vez que, ela existe justamente porque o mundo é segregado. Precisaria então o mundo receber uma nova construção social a respeito da noção de gênero (que nessa perspectiva deveria ser re-conceituado) para que uma nova etimologia fosse cunhada, para que um conceito repaginado de algo que realmente possa me representar fora da normatividade possa de fato existir. Homens precisariam deixar de ser homens e mulheres precisariam deixar de ser mulheres, para que todes possam descobrir a possibilidade de se tornar alguma coisa diferente do esperado (que não existiria mais), para que possam se comportar de forma mais orgânica, se aproximar mais de seus desejos genuínos (e não dos do outro, individual e coletivamente) e construir redes mais saudáveis.


Enquanto esse um-dia-devaneio vai se aproximando (porque evoluímos constantemente e tudo é mutável, menos a esperança) vamos falar sobre expressão de gênero. Expressão de gênero diz respeito a um conjunto de comportamentos baseados em como se vestir, falar, olhar, andar e se apresentar ao mundo de forma geral, tendo como base os sistemas centrais do gênero - a feminino e a masculino. Ok, mas e as pessoas não binárias? É comum associar pessoas não binárias a uma expressão de gênero mais andrógina, um conceito cunhado para se referir a pessoas que se expressam tanto com símbolos femininos quanto com símbolos masculinos. Antes de mais nada vamos pensar a questão: o que caracteriza um ser como feminino, outro como masculino e um terceiro como não binário? Por mais que existam diversos esforços para provar diversas teorias, absolutamente nada caracteriza um ser quanto ao seu gênero do que uma ideia nutrida na mente das pessoas que elas continuam reproduzindo (e produzindo quando novos conceitos surgem para dar conta das consequências de um único) de geração em geração.


Até o momento, vivemos em um ponto onde já está posto que sexo não tem a ver com identidade de gênero, que por sua vez não tem a ver com expressão de gênero (em outro texto falaremos sobre sexualidade). Por qual motivo então as pessoas não binárias são constantemente associadas a uma expressão andrógina para que, ao se pronunciarem, não binárias sejam legitimadas em sua identidade? Porque na nossa mente comedida é mais fácil entender e legitimar o ‘’estranho’’ quando ele vem acompanhado de uma ‘’estética estranha’’. Porque quando uma pessoa se afirma não binária, possui uma vagina, foi criada e apresentada ao mundo como mulher e usa um batom é mais difícil compreender o que essa pessoa, que parece tão ‘’normal’’, diz ser o que se é. Porque é mais fácil aceitar uma pessoa transmasculina e/ou transfeminina que passa por processos de hormonização, faz determinadas modificações no corpo e ali você vê uma correspondência completa de algum gênero, qualquer que seja, mesmo que o que exista entre suas pernas te gere confusão, do que aceitar (lê-se respeitar) que alguém se afirme algo que na sua cabeça não corresponda ao que é ser homem ou mulher, afinal, homem tem pênis, mulher tem vagina (mesmo que todo mundo tenha cu e mamilo) e não se pode ser nada além do que está imposto e esperado que se seja.


Segundo a influenciadora Cup, a construção de uma identidade não binária e da forma como nos expressamos ao mundo é sobre quem somos. Para elu:


‘’Muitas pessoas criam a expectativa de que você fugir do binário significa de alguma forma você ser uma grande mescla do masculino e do feminino, quando, na real, não é sobre isso. Nunca foi. O que eu acho que as pessoas querem é que você dê uma aparência simultaneamente de masculinidade e de feminilidade muito forte. E que se você não é exatamente assim… por que você se diz não-binário? E afinal de contas, então, como é que eu faço para ter uma aparência não binária?’’ (Cup, 2023).

Na realidade, pessoas não binárias têm o aparência que desejam, nos dias em que desejam, usando as símbolos que desejam, inclusive os ressignificando e bradando, pela existência e pela palavra, que quem precisa se vestir de forma diferente não somos nós, afinal, u binariedade que não nos é suficiente e não cabe em nossas corpas.


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Referência:


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