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JOSÉ SARNEY, UM ESCRITOR.


Acabo de ler Saraminda, minha terceira aventura pela obra literária de José Sarney, livro publicado pela primeira vez no ano 2000, depois de ter lido Norte das Águas, de 1969, e O Dono do Mar, de 1995. E nessa terceira vez em que viajo pelas letras de nosso primeiro presidente da República pós-abertura democrática, saio, como nas outras duas, com a forte percepção de Sarney como um dos melhores escritores nacionais de todos os tempos. Entre os motivos que embasam minha percepção está o fato de que no Brasil, ao menos entre os autores ficcionais que já li, só Sarney se propôs a escrever com refinamento uma prosa que podemos situar entre o antropológico, o realismo mágico e o que se convencionou chamar de regionalismo. E se ser criativo nem sempre significa ser bom numa determinada arte, Sarney o é, e como é!


Aos que insistem, de antemão, em torcer o nariz para este escritor maiúsculo, supondo que ele tenha conquistado tal posição à fórceps por ter sido uma espécie de coronel na política maranhense e um influente nome do poder em nível nacional durante muitos anos, o que posso fazer é sugerir o mais óbvio, isto é, que leiam o filho de Pinheiro antes de julgar sua obra. É mesmo uma operação simples: basta desafiar o próprio preconceito literário, lutar contra qualquer tipo de ranço contra esse homem, contra as lembranças dos tempos em que, sob seu governo, planos econômicos se sucediam sobre uma população que, ora recebia a contragosto o papel de fiscal de preços nos supermercados da vida, ora sofria com a forte burocracia dos serviços públicos.


O objetivo aqui não é defender o Sarney político. Apesar de entender que, ao menos em seu papel como presidente, ele talvez tenha feito o que lhe foi possível fazer à época, dado o difícil momento da abertura democrática nacional. Nosso escritor, que além da literatura e da política, também trilhou, embora por pouco tempo, o campo da advocacia, no cenário político nacional destacou-se por ter sido sempre uma liderança que buscou ser conservadora sem deixar de ser pragmática; posicionar-se como alguém de direita sem, no entanto, deixar de transitar pelo centro e de dialogar muito bem com as forças progressistas, como em seu importante papel na costura que possibilitou a Constituição Cidadã de 1988.


Quanto a ter tido uma relação ambígua com a ditadura que governou o Brasil por duas décadas, num período apoiando a sustentação dos militares no poder e noutro rompendo com a ala governista do regime e fundando a Frente Liberal, em 1984, grupo política que defendia a redemocratização, o que posso dizer é que Sarney, embora tenha se filiado ao PMDB só em 1984, período de abertura, para concorrer como vice de Tancredo Neves, tornou-se um típico emedebista, força partidária que sempre se caracterizou por desempenhar o paradoxal papel de travar o desenvolvimento nacional, atuando ativamente, ao mesmo tempo, para manter o país nos trilhos do progresso, como raros partidos já o fizeram, com suas habilidosas alianças que têm assegurado há décadas a rotinização da democracia brasileira e de seu aparato administrativo. Nosso ex-presidente notabilizou-se sempre por ter sido uma figura pública de grande polidez, um homem sem histrionismos, mas com muito protagonismo, goste-se ou não de sua figura, um tipo em falta na política nacional, nesses tempos espetaculosos.


Mas, enfim, não é falar do Sarney político a intenção deste texto, como já deu para perceber. E como eu sempre soube separar autor de obra, ainda que nosso escritor houvesse sido uma negação absoluta como homem da política institucional, asseguro-lhes que isto não impactaria na minha avaliação de seus livros. Perdoem-me pelo tempo que dediquei a abordar a vida política do ilustre maranhense. Convenhamos, é difícil não se referir à carreira pública de uma pessoa quando ela foi presidente da República. Deixados os pingos nos is, voltemos, pois, aos escritos de nosso acadêmico.


Saraminda é um romance que aborda, de fundo, a relação entre metrópole e colônia, no caso, a França e a Guiana Francesa, uma narrativa que retrata a febre do ouro no chamado Território do Contestado do Amapá, área à época em disputa entre Brasil e França e que, em sua maior parte, constitui o atual estado brasileiro do Amapá, chamado pelos guianeses, naquele contexto, de Mapá. Além de apresentar uma das maiores protagonistas mulheres da literatura brasileira contemporânea, o romance demonstra a exímia capacidade que Sarney possui de tecer um tipo de crônica do Brasil das bordas, neste caso, de uma região ainda tão pouco conhecida pela grande maioria dos brasileiros. Nos dois outros livros de sua autoria já aqui citados, ele também havia demonstrado essa mesma competência, só que em relação ao Brasil dos limites e amálgamas geográficos e culturais internos.


Em O Dono do Mar, escrito alguns anos antes de Saraminda, e em Norte das Águas, anterior aos dois, Sarney também cunha sua marca de escritor capaz de descrever com maestria o dia a dia de regiões de culturas muito próprias. Nesses dois casos, no entanto, como comentado acima, a borda e a mescla em questão são culturais e físicas, não político-administrativas, ao contrário da área retratada em Saraminda e à época em disputa, que atualmente, em sua maior parte, consiste no estado brasileiro do Amapá. Naquele momento, no entanto, nesse território se falavam duas línguas (três, se considerarmos que o francês crioulo era diverso do das elites que trabalhavam no aparato burocrático da colônia, em geral brancos franceses ou nascidos cá no Cone Sul), havia grande compartilhamento cultural entre a colônia francesa, hoje território ultramarino da França, e o Brasil do Norte.


No Maranhão, terra em que se passam os contos de Norte das Águas e o romance O Dono do Mar, ao contrário do que vemos em Saraminda, a fronteira, a mistura, a confluência são processos culturais e geográficos, não político-administrativos, já que o Maranhão compartilha fortemente elementos antropológicos típicos do Norte e do Nordeste, sendo uma verdadeira área de transição entre esses dois brasis, assim como ambiente físico que se divide em cerrado, caatinga e amazônia.

Em Norte das Águas, Sarney descreve o homem do sertão e o do litoral maranhense, fazendo uma abordagem vívida e cheia de humor do Maranhão profundo, das águas, das plantas típicas, como os babaçus, dos forrós nas roças, das rixas políticas e daquelas  alimentadas pela moralidade daquilo que Gilberto Freyre denominava catolicismo moçárabe brasileiro (FREYRE, 2003),  em lugarejos inseridos em belas e remotas paisagens, recantos isolados por lama, por águas, pela ausência do Estado e suas políticas públicas naqueles anos 1960. Neste livro de contos, apesar dos exageros humorísticos, não notamos com tanta força  a presença do realismo fantástico, diferente de em O Dono do Mar, no qual se desenrolam as aventuras mágicas de mar e terra do forte (e até casca grossa, em muitos momentos) pescador Antão Cristório, protagonista que foi, ele próprio, uma metáfora da relação entre os pescadores tradicionais e o mar, com seus mistérios e assombrações, esse lugar-entidade colossal onde a todo pescador só é dado sobreviver se por ele nutrir respeito profundo e constante.


Por sua vez, entre Clément Tamba, um guianense da Caiena do século XIX, e Cleto Bonfim, um garimpeiro que havia se tornado o maior daquela região, noutros termos, dois amigos que migraram à Região do Calsoene (no português é atualmente grafado como Calçoene, mas Sarney prefere deixar a grafia afrancesada utilizada na região, para enfatizar aquele contexto) para se embeber de ouro, enriquecer com o metal amarelo, Saraminda, diferente dos personagens costeiros e daqueles do sertão presentes nas outras duas obras, é uma espécie de mulher-serpente, ora mulher-deusa, ora mulher dotada de malícia dúbia, algo entre o infantil e o ardiloso, entre o pueril e o misterioso, perigosa para todos que lhe cercam, antes de tudo.


Circulando em seu sangue o amálgama de povos negros da costa ocidental de África, indígenas amazônicos, colonizadores franceses e judeus sefarditas, que naquela região, tal qual aqui no Nordeste, aportaram como cristão novos (conversão cristã pela qual passaram para poderem sobreviver à inquisição católica no continente europeu, no final da Idade Média e início da Moderna), a nossa protagonista é descrita como uma mulher de beleza inebriante, que enfeitiça quem com ela se depara. Ela é retratada como uma jovem cujos bicos dos seios têm a cor do ouro, e este é um ponto salientado de modo recorrente pelo nosso autor, certamente uma metáfora para a relação entre os garimpeiros e essa riqueza, mais precisamente à condição de se querer sempre mais e mais ouro, como se ele sempre escapasse pelas mãos, e assim também se desejam-se os carinhos e calores de Saraminda, cuja necessidade de prazer parece ser sempre pautada na mania de encantar e brincar com os corações e os mais íntimos instintos dos homens que dela se aproximam.


O romance também retrata, de modo quase poético, a brutalidade daquele mundo de garimpo, pobreza, prostituição, alcoolismo e assassinatos banais. Na corrida pelo metal dourado, prostitutas eram compradas pelos garimpeiros mais ricos por gramas de ouro. Saraminda, adolescente de quinze anos de idade, é obrigada a se fazer mulher e dona de sua própria vida devido à pobreza e carência de uma estrutura familiar estável, passando a  trabalhar num bordel. Figura portadora de personalidade com rara força espiritual, a personagem pratica com os homens com quem passa a conviver após ser adquirida a dez gramas de outro por Cleto Bonfim, o dono dos principais garimpos da região, uma vingança poderosa, conscientemente ou não, fica a critério do leitor.


Pela sua beleza e pela magia de seus sinuosos mistérios, Saraminda conquista tudo que almejara, curvando muitos homens a seus pés e destruindo, com sadismo sutil e disfarçado na forma de sedução, a vida daquele que adquirira espécie de direito dourado sobre sua pessoa. A bela mulher, intensa como o ritmo das chuvas do Norte, antes de ser escravizada por seu adquirente, passa, ela própria, a ser escravizadora daquele paraense rústico, submetendo o poderoso senhor do garimpo do Limão, aquele a quem muitos temem só de abrir a boca, às mais diversas humilhações, como a traições escancaradas com garimpeiros e, como num golpe fulminante, submetendo-o a conviver com a paixão avassaladora e, ao mesmo tempo, com o capricho carnal pelo qual ela foi arrebatada pelo francês Jacques Kemper, enviado de Paris à Guiana para lhe trazer um vestido, presente da companhia francesa que compra ouro de Cleto Bonfim, que se mostra um marido cada vez mais apaixonado e prisioneiro dos encantos de nossa protagonista guianense.


E quem é Clément Tamba? Ele é um dos personagens que narram o romance, mas também aquele que sempre desejou a Saraminda como quem aspira ao próprio sentido de existir, e que agora conversa com o espírito de Cleto Bonfim, seu grande amigo e parceiro nos negócios da extração do ouro. Além desses dois personagens narradores, ainda contam a trama a própria Saraminda e seu amante Jacques Kemper, que, de galã francês que seduzia e desfrutava dos amores das jovens parisienses, antes de ter sido enviado e submetido ao cativeiro nas proximidades da casa de Saraminda e Cleto, no garimpo do Limão, transforma-se numa espécie de zumbi, sob a implacável natureza amazônica, que na obra pode ser descrita como um tipo de espaço ao mesmo tempo encantado, atraente e opressivo para os europeus.


Como notamos, Sarney se propõe criar um clássico de nossa literatura narrando sua história a partir da voz de diversos personagens, além de trechos em terceira pessoa, uma técnica discursiva que, quando bem desenvolvida, e ele o faz com maestria, oferece ao leitor a possibilidade de chegar mais facilmente à formação de um juízo de valor, já que lhe  proporciona múltiplas perspectivas. A partir de diversos pontos de vista, Saraminda é, sem dúvida, um romance que nos serve não somente como tradução literária do processo de colonização europeia da Região Amazônica, mas também da complexa teia de relações pessoais constituída por elementos como espírito aventureiro, violência, traição, busca por riqueza e poder que estiveram presentes na formação das fronteiras em todas as Américas.


A cada linha, a protagonista nos faz mergulhar naquele universo do garimpo sob a visão de uma mulher que vê na metrópole um padrão de luxo. Paradoxalmente, esse padrão é sustentado pelos metais que os próprios garimpeiros extraem com suas mãos, em meio a mosquitos mortais, feras, feitiços, calor opressivo e a violência cega da corrida pelo ouro, néctar amaldiçoado que, no fim, só traz a desgraça.


E, por fim, desculpe-me se você é um pouco mais velho e guarda certo ranço do nosso ex-presidente, tanto pelos tempos turbulentos de sua presidência quanto pelo perfil de coronelismo com que dominou a política do Maranhão por anos a fio. O seu ranço nem precisa passar, desde que se dê a chance de experimentar o escritor Sarney. Conhecendo o autor, acredite: você provavelmente esquecerá o político.

 

 

Referência da imagem:

Referência bibliográfica:

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global, 2003. FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global, 2003. 728 p.

SARNEY, José. Norte das águas: contos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. 197 p.

______. O dono do mar. São Paulo: Siciliano, 1995. 284 p.

______. Saraminda. São Paulo: Leya, 2014. 256 p.

 

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