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LEVAR DEMOCRACIA OU TOMAR RIQUEZAS?: A Velha Lógica do País Salvador





Nos primeiros dias de 2026, fomos surpreendidos com um ataque dos EUA de Trump à Venezuela de Maduro. As primeiras informações já divulgavam que o ditador venezuelano e sua esposa haviam sido capturados e levados aos Estados Unidos. Nos últimos meses de 2025, já havíamos vivenciado ataques estadunidenses a embarcações no litoral caribenho que, supostamente, carregavam narcotraficantes venezuelanos. Nunca foram apresentadas provas de que se tratava, de fato, de narcotraficantes. Trump, por sua vez, sempre demonstrou preocupação com a ditadura venezuelana e interesse em levar democracia para o país.


Não é de hoje que nações e instituições divulgam a necessidade de levar algo para algum povo, supostamente necessitado. No século XVI, Portugal e Espanha justificaram a colonização dos territórios americanos por um conjunto de argumentos políticos, religiosos, econômicos e jurídicos, alinhados à mentalidade europeia do período. Entre as principais justificativas estavam a expansão da fé cristã, sobretudo do catolicismo, entendida como uma missão divina de conversão dos povos indígenas, legitimada pelas bulas papais e pelo Tratado de Tordesilhas. Na prática, a intenção era a busca por riquezas e recursos naturais, como metais preciosos, terras e produtos tropicais, fundamentais para o fortalecimento econômico das coroas ibéricas dentro da lógica mercantilista. Havia também a ideia de “direito de conquista”, baseada na suposta superioridade cultural, religiosa e tecnológica europeia, que classificava os povos originários como inferiores ou bárbaros, necessitados de tutela e civilização.


Da mesma forma, a partir do século XV iniciou-se a escravidão negra ocidental. As nações escravistas do mundo ocidental construíram diversas justificativas para legitimar a escravidão negra, combinando argumentos econômicos, religiosos, jurídicos, científicos e culturais, sempre a partir de uma lógica de dominação. No campo religioso, difundiu-se a ideia de que os africanos seriam pagãos ou amaldiçoados biblicamente, como na interpretação racista do mito da maldição de Cam, o que servia para naturalizar sua submissão e apresentar a escravidão como meio de catequese e “salvação espiritual”. Já no campo intelectual, especialmente a partir do século XVIII e, com mais força, no século XIX, teorias e doutrinas raciais científicas sustentaram a noção de inferioridade biológica e moral dos africanos e seus descendentes, associando-os à animalidade, à preguiça e à incapacidade intelectual. Culturalmente, essas ideias foram reforçadas por estereótipos e discursos civilizatórios que defendiam a escravidão como necessária para disciplinar, controlar e “educar” corpos negros considerados perigosos ou selvagens.


Do mesmo modo, as nações europeias fatiaram e colonizaram a África e, em menor grau, a Ásia, no final do século XIX, com a justificativa de levar civilização a povos considerados inferiores e bárbaros pelos europeus. Na realidade, buscavam extrair riquezas das colônias e ampliar seus mercados para os produtos produzidos em larga escala após a Revolução Industrial.


Voltando à atualidade, o regime chavista de Maduro deixou a Venezuela pobre, apesar de o país ainda ser rico em petróleo, mas sem distribuir adequadamente suas riquezas. O regime ditatorial prendeu opositores, ampliou a pobreza, promoveu crises humanitárias, controlou a imprensa e adotou outras práticas antidemocráticas. Ainda assim, nada disso justifica que os Estados Unidos invadam o país, prendam o governante e sua esposa e removam um regime do poder de uma nação soberana. Os EUA foram amplamente criticados por violarem normas do direito internacional das quais os próprios estadunidenses são signatários.


É notório para especialistas em relações internacionais que o maior interesse dos Estados Unidos está na maior reserva petrolífera do mundo, pertencente à Venezuela. O governo de Caracas já não mantinha relações amistosas com os EUA, preferindo relações comerciais com a Rússia e a China, nações que competem com os estadunidenses pela hegemonia mundial. Nesse sentido, sob a alegação do combate a narcotraficantes, mesmo sem provas de sua existência, e com a justificativa de levar democracia à nação, os EUA se intrometem mais uma vez na soberania de um país em prol de seus próprios interesses. Afinal, ainda que outro ditador assuma o poder na Venezuela, se for aliado aos interesses estadunidenses, tudo estará bem para Trump.


Da mesma forma, os Estados Unidos já invadiram diversos países ao redor do mundo em diferentes períodos, além de terem apoiado a implantação de ditaduras, como ocorreu no Brasil em 1964, quando o combate ao comunismo serviu de fachada para a intervenção estadunidense motivada por interesses econômicos. Observe a contradição, já que os EUA se autoproclamam os responsáveis por levar a democracia ao mundo.


Por que Trump não ataca a Rússia ou a China com a justificativa de levar democracia a essas nações? Porque são países militarmente poderosos. Por que Trump não leva democracia a El Salvador e à Nicarágua, já que são nações ditatoriais na América? Porque são aliados de extrema direita. E por que os EUA de Trump não levam ajuda e democracia ao Haiti? Porque esse pequeno país nada tem a oferecer aos EUA em troca. Percebem? Sigamos atentos a essa movimentação geopolítica.



REFERÊNCIAS:

 

BISCHOFF, Wesley. EUA lançam ataque em larga escala na Venezuela e anunciam captura de Nicolás Maduro. G1. 03 jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/trump-diz-que-maduro-foi-capturado.ghtml. Acesso em: 03 jan. 2026.

 

Instagram @dr.rubensduarte. Disponível em: https://www.instagram.com/dr.rubensduarte/. Acesso em: 03 jan. 2026.

 

SOUSA JUNIOR, Manuel Alves de. Partilha da África / Conferência de Berlim. In: SOUSA JUNIOR, Manuel Alves de. Dicionário racial: termos afro-brasileiros e afins. v. 01. Curitiba: Appris, 2024. p. 197-199.

 

SOUSA JUNIOR, Manuel Alves de. Por que os Estados Unidos se metem em tudo? Portal Soteroprosa. 25 jun. 2025. Disponível em: https://www.soteroprosa.com/single-post/por-que-os-estados-unidos-se-metem-em-tudo. Acesso em: 03 jan. 2026.

 

Referência da imagem:


VALOR INVESTE. EUA exigem da Venezuela fornecimento direto de petróleo para suspender sanções, diz agência. Valor Investe Mercados. 09 mar. 2022. Disponível em: https://valorinveste.globo.com/mercados/noticia/2022/03/09/eua-exigem-da-venezuela-fornecimento-direto-de-petrleo-para-suspender-sanes-diz-agncia.ghtml. Acesso em: 03 jan. 2026.

 

4 comentários

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Priscilla
há 4 dias
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Excelente texto. Novamente os EUA traçando sua estratégia de dominação em nome da democracia. Que situação perigosa, será que o próximo alvo será o Brasil?

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Manuel Sousa Jr
há 3 dias
Respondendo a

Olá Priscila, sim, é um risco para todo o mundo, sobretudo os alvos dos EUA. No momento, o que se vislumbra é um risco maior para próximos alvos como Panamá (por causa do canal), Groenlândia (por causa da rota de navegação no ártico), Colômbia (por causa das drogas e da relação ruim entre Trump e o presidente colombiano) e, em menor medida, para o Canadá, quarto país do mundo em reservas petrolíferas. A situação ruim para o Brasil no momento é que temos em nossa fronteira um país que está dominado pelos EUA, o que pode gerar novas ondas migratórias e outros problemas. Sigamos atentos. Obrigado pelo comentário

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Convidado:
há 6 dias
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Absurda ação dos EUA e conivência do ocidente

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Manuel Sousa Jr
há 6 dias
Respondendo a

Com certeza e enquanto Trump estiver no poder, veremos outras ações! Obrigado pelo comentário

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