MARIA PADILHA: História, Tradição e Divindade
- Autor(a) Convidado

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*Janus
Ela foi odiada pela nobreza de sua época. Quando morreu, teve a majestade reconhecida. Séculos depois, na América, seria cultuada por multidões. Contudo, quem foi Maria Padilha? Mulher da realeza, nascida na Espanha da Idade Média? Lenda, criada ao sabor de tradições populares? Ou um dos nomes mais conhecidos nas religiões afro-brasileiras?
Espanha, 1334. Guerras, rivalidades e casamentos realizados para selar alianças políticas. Nasce uma mulher, responsável por mudar os rumos do Reino de Castela: Maria Díaz de Padilla. O nome Padilla, posteriormente Padilha, procede do latim patella, denotando panela ou pequeno prato. Trata-se de um topônimo, apontando para a região de Padilla de Suso, em Burgos. De família nobre, a jovem Maria cresce no seio da aristocracia, sendo educada nos moldes tradicionais. Sua beleza e carisma eram únicos e irresistíveis. Por volta de 1352, ela conhece Dom Pedro I, rei de Castela. A paixão arrebata ambos, Maria e Pedro tornam-se amantes e ela ascende ao posto de sua conselheira política.
Embora Pedro visse em Maria a sua verdadeira e única companheira, em nome da coalizão Castela-França, em 1353, ele se casa com Branca de Bourbon. Dias depois, o rei deixa Branca de lado e volta aos braços de Maria Padilha. A decisão causou revolta na corte: Pedro foi pressionado pelo clero e nobreza a retomar sua aliança com de Bourbon. Ele não cedeu, mantendo a francesa longe da corte, até que em 1361, em Medina Sidônia, província de Cádis, Branca foi envenenada em situação ainda hoje controversa para os historiadores. Enquanto isso, Maria Padilha teve 4 filhos com Pedro: Beatriz, Constança, Isabel e Afonso. A sua ativa participação na política do reino logo foi alvo da inveja e de fortes críticas dos demais aliados do rei. Logo, surgiram os primeiros burburinhos, colocando Maria Padilha no
centro das artes mágicas: ela seria detentora de poderes ocultos, capazes de subjugar Pedro. Certamente, em plena Idade Média, esta era a única hipótese aceitável para explicar a genialidade de uma mulher e seu uso das artes mágicas mouras, para levar esperança aos soldados castelhanos, nos confrontos mais viscerais entre os reinos de Castela e Leão.
A despeito dos rumores, Maria e Pedro seguiram firmes, como marido e esposa, tendo se casado em segredo, mesmo antes da união entre o rei de Castela e Branca de Bourbon. Todavia, em 1361, a peste bubônica alcançou Padilha e ela morreu, deixando Pedro de Castela pesaroso. Maria teve um funeral digno de rainha. No ano seguinte, veio a revelação bombástica: Pedro, tendo reunido nobres e clérigos, confirmou Maria Padilha enquanto sua única e real esposa, sendo, portanto, ilegítimo o seu casamento com Branca de Bourbon. O resultado de tal pronunciamento veio em seguida: Maria recebe o título póstumo de rainha de Castela, seus quatro filhos passam a herdeiros do trono e seu corpo é transferido a um local destinado a realeza. A história de Maria Padilha, enfim, estava enraizada na cultura espanhola.
As relações entre povos originários, africanos e europeus realçaram a imagem de Dona Padilha no Brasil, atribuindo a ela o caráter de Ser Espiritual. Sua autonomia, inteligência, sagacidade e beleza foram trazidas pelos colonizadores e por aqui agrupadas nas diversas tradições afro-ameríndias. Entre preceitos, evocações, pontos riscados e cantados, os adeptos encontraram nela a personificação da resiliência. Desde então, seu nome percorre todo o Brasil nas vozes do Povo de Santo: “quem viu o sol de esconder | quem viu a lua brilhar | quem viu o espinho da rosa | também vai ver Maria Padilha chegar”. Não obstante, há discordâncias de cunho religioso sobre Dona Padilha. Para alguns, aquela que baixa nos terreiros de candomblé, nos barracões de umbanda e nas casas de quimbanda é o espírito da mesma esposa de Pedro de Castela. Para outros, ela já ascensionou, isto é, evoluiu, formando linhagens – ou falanges – autorizadas, para, em seu nome, realizar trabalhos como abertura de caminhos, resolução de questões amorosas, quebra de laços negativos e recuperação da autoestima.
Compreendemos o arquétipo Maria Padilha enquanto Pomba-Gira que atingiu a perfeição ao longo de sucessivas encarnações. Por isso, Ela não incorpora em médiuns e tampouco necessita vir em Terra. Na verdade, são suas linhagens as responsáveis por esses trabalhos. Isso, porém, não impede canalizações diretas com a própria Senhora da Magia. Foi o que ocorreu em julho de 1997, quando a escritora e cartomante Eliane Arthman recebeu de Dona Padilha as informações necessárias para a criação do Seu oráculo de 36 cartas, visando expandir o autoconhecimento e a cura. O vermelho é sua cor predileta. A verdade é o seu lema.
A Moça do Fogo das Almas é um Espírito de Luz e trabalha apenas no Caminho do Bem; prova disso é ter, em vida, ordenado a construção de inúmeros mosteiros e conventos na Espanha. No Plano Maior, Ela é o expoente do poder e sabedoria femininos, convidando para a transformação, vendo sempre o Bem e o Mal, a Luz e a Sombra, a fim de empoderar os humanos, levando-os a se reconhecer prósperos e felizes. A Sua característica mais agradável é a clareza e positividade: ao mesmo tempo em que revela os aspectos desconfortáveis de uma situação, também mostra como superar as adversidades envolvidas. Decidida, não teme lutar pela causa do Bem e da Justiça. Laroyê, Dona Maria Padilha!
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*Janus é taroterapeuta d’O Baralho de Maria Padilha.
Instagram: @tarot.rainha.maria.padilha

Laroyê! 🦉 🔱 🌕 💃🏾