O perigo da filosofia rasa e dos discursos otimistas



Querer é uma coisa, poder, é outra. É muito raso e superficial essa coisa de discurso motivacional, pensamento positivo, otimismo e positividade tóxica. Querer não é poder e a realidade parece ser muito dura para essas pessoas que querem fugir da fatalidade.


Compreendo, é uma forma de subsistência e existência. Respeito as escolhas das pessoas de viverem conforme a filosofia que criam para encontrar mecanismos de sobrevivência. Todo discurso transcendental e espiritualista é bem vindo, não descarto suas eficácias, de alguma forma serve como sustentáculos.


Porém, a minha filosofia é muito mais pela ótica de um niilismo e absurdismo prático realista otimista. Por ser niilista, nego esses discursos motivacionais e luminosos, é absurdista, pois encaro a vida humana da forma que ela se constrói em coletivo, como absurda, mas não encontro a beleza de Camus nessa caminhada. É prática e realista, porque não existe nada além do que é, pedra é pedra, pau é pau, não se transforma por força de pensamento, embora a mente crie realidades internas, as externas continuam. Sou adepta aos limites, acredito muito mais nessa estratégia saudável de aceitar as coisas como são e acolhê-las ao invés de buscar mudanças. Mas apesar de tudo, é otimista, porque no vazio e na nulidade do que se é, pedra e não pássaro, na sua realidade intrínseca do não voo e da não vida, nem por isso a pedra perde as propriedades de pedra que fazem dela singular e também valiosa.


É difícil nessa vida de forçação de barra onde pessoas tentam nos empurrar goela abaixo suas filosofias, como se para sustentá-las precisassem de nossa permissão ou apoio. Me parece uma estrutura muito frágil se precisa ser imposta aos demais, de modo que fazer o outro acreditar na sua crença te ajudaria a não duvidar da mesma. Penso que filosofias existenciais sólidas e eficazes não precisam ser propagadas, formar agrupamentos ou discípulos, nem serem aprovadas por ninguém. Ademais, isso é uma invasão baita violenta no ser desse outro.


Alteridade, a meu ver, é um conceito extremamente equivocado e praticado com tal romantismo que se perde da praticidade. Deixar-se transmutar pelo que há ao redor não acontece sem gerenciamento próprio e esse mecanismo de gerenciar é sua postura filosofal, seja ela autêntica ou comprada ou coincidente. Eu aprecio os limites, o respeito, o silêncio, o olhar e o abraço, aprecio o freio. As pessoas de tão empolgadas em curar-se e propagar essa cura ficam cegas de desejo transcendente e esquecem que o outro é outro e que por mais que pratique a alteridade não é capaz e nem deve ser capaz de colonizar, mesmo que a "intenção seja boa", pois como diz o ditado popular, destas o inferno está cheio.


Por que falamos demais? Porque desenvolvemos tanto pelo outro, seja por boa ou má intenção? A boa intenção esbarra na má quando se pressupõe saber o que é melhor para além de si mesmo. É narcísico, é uma crença absoluta em seus próprios ideais, de maneira cega, imprudente e alienada. Creio que não precisamos disso. Não é falta de empatia olhar a si e cuidar de suas estruturas sem precisar expor e compor-se no outro nessa busca incessante e profética de formar comunidade e um "mundo melhor". Que mundo? Quem escolheu? Onde está o livre arbítrio?


Deveríamos gastar mais tempo em aceitar que a diferença é a diferença mesmo, que não precisa mudar nada, e que ações políticas não são ações interpessoais. Desconfio muito de quem fala do que não sente, aqui friso a propriedade real do sentir, passar o ferro na pele na experiência prática e não sentir a dor na empatia e se fazer presente. É tão desrespeitoso e invasivo. Se há algo que abomino são invasões, embora não haja o que fazer quanto a isso, não ensinamos limites, apenas se aprende. Gosto da singularidade do ser que busca ser e apenas viver o ser nesse movimento unico e profundo, afinal toda invasão promovida ou permitida reflete na auto invasão.


Tudo começou a decair quando o ser humano deixou de respeitar o espaço do outro humano, do outro animal, do outro ser vivo da outra fonte de energia. Não sabemos conviver conosco em respeito, como podemos fazer para além de si? Eu gosto dos limites e não das idealizações e sonhos cheio de palavras floreadas. Quem não sabe o que é dor, vive parecendo tanto querer sentir, se aproximando e grudando em quem sofre sem nem pensar que a última coisa que quem sofre pode querer é ter que falar sobre sua dor com quem muito sabe, muito pensa sentir, mas nada vivência. Djamila Ribeiro já explana sobre o perigo do discurso da alteridade, da importância do lugar de fala e do cuidado. Mas essas palavras parecem ser distorcidas ao olhar dos que anseiam por serem profetas e me parece serem pessoas em busca de sentido. Isso para mim é muito triste.


Vivemos buscando discursos, mas temos muita dificuldade em escutar. Ouvir não é escutar, tem pessoas que só ouvem, não escutam e ainda acha que é dever de quem muitas vezes fala com o olhar e sua dor ter ainda que explicar. Para sermos descolonialidades precisamos aceitar nosso eu colonial que vive querendo colonizar pessoas por pensamento, palavras ou ações. O silêncio é a melhor forma de escuta, mas vivemos preenchidos por barulhos de palavras que se mutam a depender de quem as usa, assumindo muitos sentidos.


É muito perigoso estudar e conhecer filósofos porque esquecemos que todo conhecimento é produzido e sentido por um ser único, mesmo que concorde ou sinta empatia, não é você, nem nunca será. Por que buscamos tantos mestres? É tão difícil se sustentar com as próprias pernas? Sim... é muito difícil, é desafiador e assustador, não sei se é um caminho melhor ou pior, só sei que sou esse caminho e gosto dele. Andar com minhas próprias pernas não é nada poético nem empoderado, é doloroso e sofrido e real, porque minhas pernas não é a sua idealização, são pernas humanas, com deficiência de cálcio, com dores nas juntas, com idade e tempo, com esforços físicos exigidos durante a caminhada intrínseca que somente diz respeito a mim. E você que também anda com suas próprias pernas você não quer ser parabenizado por isso, não há nada a se comemorar, não há nada belo nisso, mania romântica de esteticizar a dor e retirar-lhe o peso atroz.


A pobreza, o sofrimento, a doença, a violência não é bela e não tem Deus purificando nada nela, não tem nada de sublime e poético, parem de invadir, oprimir e colonializar com suas belas intenções, não há otimismo nem "lado bom", existe apenas existência. Existe respiração, suor, cansaço, dor, e quem vive não te pede nada além de respeito, limite e "fique no seu canto". Não venha dar pão nem abraço se não foi pedido. O movimento é duplo e só me pergunto: te convidei? Aceitei?

Até quando nossos "bem feitos" não estão cheios de violência e falta de respeito?


Os índios pediram tecnologia? Os colombos pediram teu documentário? As mulheres pediram seu dinheiro ou seu comprometimento? Os negros pediram teu reconhecimento? Acredito mais que foram pintados assim, não é a toa que os países colonizadores se gabam das riquezas intelectuais que "levaram" a outros países , mas como ninguém pediu, digo que impuseram e acreditam que precisam da gratidão e da reverência dos povos que eles mesmos oprimiram, escravizaram, violaram e violentaram, destituíram e destruíram porque seus ideais, suas filosofias, suas crenças, seus estudos, sua civilização e suas tecnologias eram superiores e relevantes em busca de um "mundo melhor ". Só me pergunto, melhor para quem?

Cansei do discurso “vamos ouvir e deixar que o outro fale”, quando não se há abertura, nem disposição na escuta, mas apenas o desejo de "fazer bonito e fazer o social". Qual a necessidade de se fazer bom e de ser bem visto? Qual a necessidade de ser louvado, agradecido? Qual a necessidade de "lamber a bunda e o saco" de uns para ser "lambido na bunda e no saco" por outros? Essa escadinha hierárquica é real e está por trás de discursos acadêmicos e políticos hipócritas.


A beleza real não existe, o que temos é feiura e não é a feiura que deve se tornar bela, nem devemos buscar o belo no feio, mas a feiura deve ser feia e aceita e dignificada como tal, sem quaisquer juízo de valor. Faço ode a feiura, a sombra, a dor, porque ela é digna e é real e deve ser respeitada e não violada pela opressão do belo nem da luz. A sombra é sombra e existe valor no que é. Portanto eu sou o que sou e tenho valor no que sou e não tente me "compreender" nem me "invadir", só se mantenha onde está e me deixe onde estou, respeite, olhe e acolha de longe, se quiser. Só entre se eu te abrir a porta, só me encontre se eu quiser te encontrar e só me proponha "salvação " para que a negue, pois tudo que preciso já está em mim.


À você que tanto procura em mim o sentido de sua existência ou do seu valor ético e moral, viva seu narcisismo de maneira eficaz, se olhe no espelho e tenha a audácia de mergulhar e se afogar no teu rio, porque aí está a vida que tanto procura, pois a sabedoria não está nos livros, mas dentro de você e esse caminho é intrinseco e individual, só você pode fazer. Termino apenas com: ME DEIXE EM PAZ! Um grito que muitos querem, mas não podem dar.


Link da imagem: https://pixabay.com/pt/photos/p%c3%a1ssaro-animal-rocha-sentado-6142244/



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