PARA ALÉM DO "MÃE": A mulher que insiste em existir inteira
- Kaihany Assis

- há 3 horas
- 3 min de leitura

Há uma palavra que se deposita sobre o corpo feminino como um destino antecipado: “mãe”. Bela, densa, necessária, e ainda assim perigosa quando se torna fronteira.
Porque nenhuma mulher é uma palavra só. Ser mãe é um acontecimento. Ser mulher é um território em expansão.
Entre esses dois pontos, há uma tensão antiga, quase invisível, que organiza expectativas, silencia desejos e distribui papéis como quem escreve um roteiro já gasto. A cultura, com sua delicadeza disciplinadora, ensinou gerações a confundir amor com renúncia, cuidado com anulação, presença com desaparecimento.
A psicanálise, sempre desconfiada das obviedades, nos lembra que onde há excesso de ideal, há também apagamento. A mãe perfeita, disponível, inesgotável, muitas vezes não é uma mulher, é uma construção. E toda construção, quando rígida demais, racha.
Quantas mulheres, ao longo do tempo, foram conduzidas a investir toda a sua energia na sustentação de um outro? Tornaram-se alicerce emocional, logístico, simbólico, de maridos, famílias, estruturas inteiras. E, nesse gesto, frequentemente interromperam algo essencial, a própria potência.
Não por falta de talento ou ausência de desejo. Mas por falta de espaço, de apoio ou viabilidade.
Ainda assim, algumas mulheres encontraram brechas para existir para além do que lhes foi designado. Não como prova de que o caminho é simples, mas de que ele sempre exigiu ruptura. Algumas delas sempre me atravessaram de forma particular.
Penso na Rita Lee que nunca pediu permissão para existir em múltiplas versões de si. Foi mãe, sim, mas também foi transgressão, invenção, deboche e inteligência afiada. Sua vida não orbitou apenas em torno de alguém, ela criou órbitas próprias.
Em Cássia Eller que cantava como quem não aceita caber. Sua voz não embalava expectativas, ela as rompia. E mesmo no exercício da maternidade, havia nela uma recusa silenciosa; a de se tornar menos.
E em Elis Regina, intensidade em estado puro. Elis não cantava apenas músicas, ela atravessava o mundo com a voz. Mãe, artista, mulher, tudo ao mesmo tempo, sem pedir desculpas por sua força, por sua presença, por sua complexidade. Sua existência nos lembra que a potência feminina não é incompatível com o cuidado, ela o transforma.
Ainda assim, fora dos holofotes, a realidade muitas vezes conta outra história.
Mulheres que pausam sonhos, adiam projetos, silenciam talentos para sustentar a engrenagem doméstica. Mulheres que se tornam suporte de um outro que, ironicamente, cresce sobre essa base invisível. E então a pergunta emerge, desconfortável:
Quem depende de quem?
A narrativa tradicional insiste em pintar a mulher como dependente. Mas, se observarmos com honestidade, veremos que muitas estruturas só se mantêm porque há uma mulher sustentando, organizando, antecipando, cuidando. Parece existir uma dependência invertida, raramente nomeada.
E, ainda assim, ela segue sendo convidada a diminuir-se.
Mas não precisa ser assim.
Podemos, e talvez devamos reivindicar outra forma de existência. Uma em que a maternidade não seja um ponto final, mas uma vírgula. Uma continuidade, não uma substituição.
E essa totalidade não é um ato de heroísmo solitário. Reivindicar o próprio espaço exige que o entorno deixe de ser um espectador da dedicação feminina para se tornar coautor da vida cotidiana. Para que uma mulher não se fragmente, é preciso que a responsabilidade do cuidado, do zelo, da logística, deixe de ser um substantivo feminino para se tornar um dever compartilhado.
Podemos, nem sempre com facilidade e raramente sem custo, ser mães maravilhosas e profissionais intensas.
Podemos amar profundamente sem nos abandonarmos, ainda que em certos momentos nos percamos um pouco no caminho.
Podemos construir relações em que o encontro não seja fusão, mas diálogo, mesmo que esse equilíbrio exija revisões constantes, cansaço e recomeços. E, ainda assim, há uma inteireza que não depende de ninguém além de nós.
Porque a beleza de uma relação não está na hierarquia silenciosa, nem na sobrecarga disfarçada de virtude. Está no encontro possível, às vezes desigual, às vezes em construção, onde dois sujeitos tentam coexistir sem que um precise desaparecer para que o outro floresça.
Permanecer múltipla não é mais uma performance a ser entregue ao mundo; é o direito de descansar da obrigatoriedade de ser a sustentação de tudo. Não se trata de ser 'supermulher', mas de ter o direito humano de ser apenas pessoa: com falhas, pausas e um horizonte que vá além das paredes do lar.
A mãe não pode deixar de ser mulher. E talvez o maior gesto de amor, por si, pelo outro, pelos filhos, seja justamente esse, permanecer:
Permanecer desejante!
Permanecer criativa!
Permanecer múltipla!
Porque uma mulher que não abdica de si ensina, mesmo sem palavras, que viver não é cumprir um papel, é habitá-lo sem se perder.
E no fim, é disso que se trata; não de negar o “mãe”, mas de atravessá-lo.
E seguir. Inteira.
________________________________________________________________
Fonte Imagem: Observatório da TV / CNN Brasil / Pinterest

Texto Maravilhoso!