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POR QUE NÃO DEVEMOS LER MONTEIRO LOBATO PARA NOSSAS CRIANÇAS?



Em 18 de abril é comemorado o Dia Nacional do Livro infantil em homenagem a Monteiro Lobato (1882-1948), que foi, sem dúvida, um grande nome para a literatura infantil brasileira. Narizinho, a menina branca de nariz arrebitado, e outros personagens tornaram-se, um marco na literatura infantil nacional. O autor utilizou, em suas narrativas, uma realidade comum e familiar da criança nas histórias de seus livros, além de ter rompido com o padrão culto utilizado até aquele momento, introduzindo a oralidade tanto na fala dos personagens, quanto no discurso do narrador. Ele empregou uma linguagem bem próxima à oralidade das crianças, o que possibilitou uma maior emoção na leitura e a escuta dessas histórias com mais atenção.


Lobato incorporou temas do folclore em suas obras, como a Cuca e o Saci, influenciando outras gerações de autores, sobretudo, a partir da década de 1970, que produziram um novo modelo de literatura infantil nos anos 1980 e 1990, levantando temas e problemas da sociedade brasileira, adotando uma linguagem inovadora e poética, com enfoque no humor e no imaginário, possibilitando, assim, que a criança leitora se tornasse mais reflexiva e participativa. Ele acreditava na capacidade dos pequenos leitores em adquirir consciência crítica baseada na simplicidade das palavras que eram compreendidas com facilidade pelas crianças por meio da subjetividade a partir de obras racistas e eugenistas.


O sucesso foi tanto que o Sítio do Pica Pau Amarelo foi transformado em série e rendeu muitas temporadas na maior emissora de televisão do país. Certamente, você que lê este texto possui alguma memória afetiva sobre o seriado e seu autor ou conhece alguém que tenha.


Mas, diante desses dados, por que as crianças não devem ler Monteiro Lobato?


Porque a vida dele foi pautada no racismo e na eugenia. Ele foi um grande amigo de Renato Kehl, principal mentor da eugenia brasileira. Lobato produziu diversos textos eugenistas e racistas e levou esse legado também para a literatura infantil, por intermédio de falas racistas, eugenistas e, principalmente, por meio da subjetividade. Existiu todo um ativismo e um compromisso político dele em pensar qual deveria ser o lugar, o papel e o futuro dos negros recém libertos das algemas e das grades da escravidão. Lobato era contrário à mestiçagem como um degrau para o branqueamento da população. Ele acreditava que o preto e o mestiço eram a causa dos problemas nacionais. A título de exemplo, veja o teor de uma carta enviada de Lobato ao seu amigo, Godofredo Rangel em 1904:


“Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problemas terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!”

Lobato criou estereótipos sobre os pretos e pardos, como a presença da “mãe” preta, gorda e cuidadora, como a tia Nastácia imortalizada na obra de Monteiro Lobato, que remetia à lembrança das mucamas e babás zelosas de uma escravidão que era cotidianamente ressignificada como de convívio pacífico e afetivo entre senhores e escravos, era atualizada nessas representações.


Um exemplo sobre como Monteiro Lobato era eugenista e racista está em outra carta destinada ao amigo e, igualmente, eugenista Arthur Neiva, quando ele chegou a lamentar-se pelo fato de não existir um grupo como o Ku Klux Klan em solo brasileiro. Ele estava nos Estados Unidos e encantou-se com muitas ações e atitudes estadunidenses, trocando cartas com frequência com amigos no Brasil. Eis o trecho da carta:


“O brasileiro, no fundo, não passa de português degenerado. [...] País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux Klan, é um país perdido para altos destinos. […] Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; tivéssemos ai uma defesa desta ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva.”

Lobato foi, aos poucos, incutindo nas crianças o racismo e os preceitos da eugenia quando pretendia transmitir-lhes princípios cívicos e higiênicos. Foi essa a linha adotada por Monteiro Lobato, reverenciado até os dias atuais pela contribuição com a literatura infantil.


Em todas as histórias de Lobato, eram bem demarcados os locais ocupados na sociedade por brancos e não-brancos. Existem inúmeros trechos considerados racistas e eugenistas em suas obras originais, como no Sítio do Pica Pau Amarelo, um conjunto de obras que ganhou grande notoriedade com vários personagens marcantes, como Dona Benta que é uma mulher branca e Tia Nastácia, uma mulher negra, como a empregada da casa. Um dos exemplos está na obra Histórias de Tia Nastácia, na qual a personagem Emília fala para a empregada da casa que dá nome ao livro:


“bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora!...”.

Na literatura para adultos, Monteiro Lobato publicou um texto chamado Negrinha em um livro de contos de mesmo nome em 1920. A trama se passa logo após a abolição da escravidão no Brasil na casa de Dona Ignacia, uma branca ex-senhora de escravizados que cria uma criança órfã de sete anos, a negrinha é filha de uma ex-escravizada de sua senzala. O fato de a menina não ter um nome e ser chamada apenas de negrinha denota uma desumanização. Ela passa por diversos tipos de humilhações e violências ao longo do texto:


“o corpo de negrinha era tatuado de signaes roxos, cicatrizes, vergões. Batiam nelle os da casa, todos os dias, houvesse ou não motivos”.

O autor deixa claro em todas as suas obras, por intermédio da subjetividade, quais os papéis de brancos e pretos que almejava para a sociedade. Brancos em posição de poder e superioridade, pretos em posição de subalternidade, subserviência e inferioridade. Lobato critica qualquer igualdade pretendida entre brancos e pretos:


“nunca se affizera ao regimen novo - essa indecencia de negro egual a branco, e qualquer coisinha: a polícia! ‘Qualquer coisinha’: uma mucama assada ao forno porque se engraçou della o senhor”. Após a menina morrer por uma febre, em decorrência de uma tristeza profunda, a senhora relata que a única coisa que sente falta é de dar uns cascudos nela: “como era boa para um cocre”.

Em 1927, Lobato publicou o romance para adultos chamado O Choque das Raças, também conhecido como O presidente negro. A obra apresenta uma distopia em que, no ano de 2228, teria sido eleito o primeiro presidente negro nos Estados Unidos. O livro aborda um momento em que os negros ultrapassariam os brancos em números absolutos e, por causa disso, conseguiriam eleger o presidente negro. O livro de ficção científica aborda que houve, nos EUA, uma transfiguração dos negros em brancos, de cabelos encarapinhados em cabelos lisos e sedosos e, como um clímax, ocorreria uma esterilização em massa cuja meta seria exterminar até o último negro do território nacional. O autor tentou vender o seu livro para diversas editoras nos Estados Unidos sem sucesso. Nenhuma delas achou que seria interessante uma distopia que abordasse essa guerra das raças em uma nação imersa no racismo científico e na eugenia.


O livro infantil Caçadas de Pedrinho apresenta uma suposta inferioridade referente à Tia Nastácia quando diz que ela escalava árvores como um macaco para escapar das feras que poderiam estar presentes no Sítio do Pica Pau Amarelo. Lobato afirma, no livro:


“Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro”.

Desse modo, com esses exemplos, podemos perceber o racismo e eugenia que tangenciavam todas as suas obras. Os seus livros originais são tão racistas, que muitas obras que ainda são publicadas por editoras, precisaram passar por adaptações para retirar trechos diretamente racistas. Ademais, Lobato ignorava pensadores e intelectuais que seguiam no combate ao racismo e valorizavam não-brancos, sendo lidos por intelectuais brasileiros e estadunidenses, como Du Bois (1868-1963) que já tinha mais de 10 livros publicados quando Lobato publicou seu romance mais racista, Gilberto Freyre (1900-1987) seguia os mesmos passos de seu mentor, Franz Boas (1858-1942), que tentava o exercício de dissociar o conceito de raça do conceito de cultura e Arthur Ramos (1903-1949), outro contemporâneo ignorado por Lobato, seguia com publicações sobre os negros e combate ao racismo, sem falar na imprensa negra.


O livro infantil é um grande recurso para o desenvolvimento de capacidades e habilidades de ordem cognitiva e socioafetiva, como a coordenação motora, a criatividade, a percepção visual e noções de cores e espaço, além de garantir o acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, todos estes consistindo nos principais objetivos da educação infantil. A experiência com a literatura pode ser responsável por libertar a criança dos limites impostos pela realidade imediata, permitindo que ela transite por um mundo de fantasia, no qual elementos são colhidos para lidar com seus sentimentos, inclusive com suas dificuldades e frustrações. Assim, a literatura infantil permite à sua criança atuar na sua própria realidade de forma criativa, inventiva e emancipatória, pois a linguagem, por meio de texto e ilustrações, ajuda a constituir a subjetividade.


Se você observar, em toda a obra de Lobato, as pessoas pretas e mestiças, como o Saci e Tia Nastácia, estão em posições de subalternidade, subserviência e inferioridade e as posições de poder e superioridade são sempre ocupadas por pessoas brancas, como Narizinho, Pedrinho e Dona Benta (que deu nome à farinha e outros produtos alimentícios, apesar da cozinheira da casa ser a Tia Nastácia).


Antigamente, a figura do negro na literatura era frequentemente associada a aspectos negativos, que minimizavam a história de lutas e resistências desse povo, enquanto afirmavam a sua inferioridade. Historicamente, essa representação do negro na literatura apresenta deturpação de sua imagem, com menosprezo da sua inteligência, dos seus costumes e do caráter. Os livros de Monteiro Lobato para o público infantil são um grande exemplo desse tipo de leitura. A leitura de histórias é um momento em que a criança pode conhecer a forma de viver, pensar e agir e o universo de valores, costumes e comportamentos de outras culturas situadas em outros tempos e lugares que não são seus, que não fazem parte da sua rotina. As questões raciais e de diversidade entram nesse momento, em que a criança absorve diversos detalhes por meio da subjetividade. As suas ideias eugenistas não foram aceitas em livros para adultos. Nos livros infantis, ele conseguiu trazer a eugenia e o racismo desejado em forma de subjetividade.


Neste sentido, eu pergunto, para que ficar lendo um clássico racista e com superioridade branca como algum livro de Monteiro Lobato se podemos ler livros que empoderam pessoas pretas, pardas e indígenas e que acabam sendo uma ferramenta antirracista para crianças brancas?


Atualmente, existe um debate importante sobre o conteúdo de suas obras justamente por terem cunho racista e eugenista. Alguns defendem que ele seja cancelado (para usar um termo atual), outros dizem que o cancelamento dele acaba sendo um anacronismo por Lobato ser um homem de seu tempo. No entanto, temos homens de seu tempo que combatiam as desigualdades raciais.


Mas, se pararmos para pensar, sempre existiu e sempre vão existir pessoas radicais “em todo tempo”, como ocorre no mundo polarizado politicamente de hoje, ou seja, daqui há 100 anos, por exemplo, alguém vai olhar para o premiê Israelense Benjamin Netanyahu (1949-), que comandou a morte de milhares de palestinos e vai dizer que ele foi um homem de seu tempo. Percebe? Existiram, existem e sempre existirão pessoas de todas as índoles. Se não pudesse mais analisar a história criticamente não condenaríamos a escravidão, o genocídio indígena e o colonialismo, por exemplo.


Eu defendo que Lobato seja apenas lido para crianças/adolescentes em ambientes mediados por pesquisadores e/ou professores, que podem fazer a contextualização e a intervenção crítica que suas obras merecem e que não sejam mais publicados para o grande público. Imagine que uma mãe, pai ou responsável pode, por exemplo, comprar um livro infantil dele em um sebo ou livraria, levar para sua casa e ler para sua criança, reproduzindo, dessa forma, por meio da subjetividade, as posições demarcadas de brancos em posição de poder/destaque e pretos/pardos reduzidos a posições de subalternidade e subserviência. Para a criança branca, ela pode ser subjetivada a entender que pessoas como ela estarão sempre a serem servidas por pessoas negras, enquanto as crianças negras podem perceber-se como inferiorizadas e sem protagonismo. Especialistas confirmam que esses comportamentos são reproduzidos em brincadeiras e acabam sendo consolidados no caráter da criança na forma de racismo e branquitude.


As obras de Monteiro Lobato devem ser lidas como fontes históricas e seus livros representam um momento em que o racismo e a eugenia eram explícitos e aceitáveis por grande parte da sociedade. Por todo o contexto aqui apresentado, defendo que um revisionismo histórico é importante. Será que ainda é válido homenagear uma pessoa que teve toda a sua vida pautada no racismo e na eugenia como nome de escola ou biblioteca, por exemplo? Essa reflexão é necessária.


A história é feita de reanálises sobre o que se tem escrito a partir de novos olhares. Por mais que Lobato desperte em muitas pessoas a lembrança de memórias infantis, é preciso que essas memórias fiquem guardadas como sentimentos positivos, mas que, por outro lado, haja a percepção, reflexão e entendimento que a história é dinâmica e que as instituições podem e devem ser renomeadas com nomes de pessoas mais relevantes para a sociedade. Esse debate também está na sociedade.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA:


BRASIL, Ministério da Educação. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília/DF, 1998.


JUNIOR, Manuel Alves de; RANGEL, Tauã Lima Verdan. (Re)Construindo saberes: raça, racismo e educação antirracista. v. 1. Itapiranga: Schreiben, 2024, p. 32-46.


LOBATO, José Bento Monteiro. Caçadas de Pedrinho. São Paulo: Ciranda Cultural, 2019. p. 38.


LOBATO, José Monteiro. [Correspondência]. Destinatário: Godofredo Rangel. São Paulo, 15 de novembro de 1904. In: LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre. São Paulo: Editora Globo, 2010, p. 133.


LOBATO, José Bento Monteiro. [Correspondência]. Destinatário: Arthur Neiva. New York, 10 abr. 1928. 1 carta. Disponível: CPDOC-FGV/RJ. Localização: AN c 1918.06.21.


LOBATO, José Bento Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. São Paulo: Brasiliense, 1995 [1937]. p. 88.


LOBATO, José Bento Monteiro. Negrinha. In: LOBATO, José Bento Monteiro. Negrinha. 2 ed. Rio de Janeiro: Revista do Brasil, 1920, p. 12.


SANTOS, Domingos Dutra dos; GOMES, Guilherme Aguiar; SOUSA, Wraydson Silva. O eu, o outro e nós: a literaturainfantil na construção da educação antirracista. In: SOUSA SANTOS, Wesley Ribeiro dos. À sombra de Monteiro Lobato: racismo e eugenia nas terras do Sítio do Pica Pau Amarelo. 2022. 175 f. Dissertação (mestrado) - Curso de História Social das Relações Públicas. Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Públicas, Vitória, 2022.



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