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POR QUE OS COLÉGIOS FECHAM? O CASO DO COLÉGIO ESTADUAL ODORICO TAVARES EM SSA




O Odorico Tavares é aquele colégio grande e gerador de polêmicas. Seja pelo alvoroço para se conseguir uma vaga no sorteio eletrônico, lá no finalzinho de 1990 e início dos anos 2000; seja pela repercussão que seu fechamento gerou na cidade, logo quando 2020 começou.


O colégio é potente e sempre esteve no campo de interesse de muitos. Foi palco de diversas pesquisas acadêmicas em áreas distintas do conhecimento, conseguiu levar estudantes para intercâmbio no exterior, possuía até gabinete odontológico, além de ter um documentário, uma tese de doutorado e um TCC[1] que aborda aspectos significativos da sua história. Trajetória essa fundamentada em 24 anos de atividade, pois embora muitos possam ter a impressão de que o colégio-modelo viveu por mais tempo, ele acabou sendo assassinado precocemente e de forma brutal.


O colégio foi inaugurado em 30 de março de 1994 e contou com uma cerimônia à altura das expectativas da população diante da unidade, recebendo nomes como Jorge Amado e Antônio Carlos Magalhães, amigos pessoais do jornalista homenageado, Odorico Tavares. Em discurso, ACM disse a seguinte frase emblemática: ‘’o nome deste colégio, que é um colégio modelo no Brasil inteiro, tinha que ser e é Odorico Tavares’’ (BAHIA, 1994).


Que morador da cidade de Salvador nunca parou para pensar nas dimensões simbólicas da educação a partir dos colégios da rede estadual: quanto a sua infraestrutura, quantidade de aulas vagas e professores faltosos, gincanas mega elaboradas e a experiência de ver estudantes traseirando e saindo pelas ruas com suas pautas para reivindicação de direitos?


O colégio Odorico Tavares, assim como outros nomes de colégios-modelo de Salvador como o Thales de Azevedo, Raphael Serravalle, Iceia, Central, Manoel Novaes, Luís Eduardo Magalhães, etc. garantiu o prestígio em seus anos de ouro, mas hoje compõe um cenário perturbador na educação baiana.


O caso do Odorico Tavares se assemelha a esses outros colégios citados, que enfrentam questões com a desvalorização da educação pública e a precarização/intensificação do trabalho docente (sem contar no mil e uma noites sem dormir em decorrência do desigual novo ensino médio), mas tem seu diferencial para ser discutido separadamente.


Pertencente a região central da cidade, o colégio tinha uma localização privilegiada, bem no metro quadrado mais caro da cidade, o Corredor da Vitória, bairro onde a especulação imobiliária assusta e a população idosa se enraíza (nota-se a precarização e defasagem dos aparelhos culturais do km que dão espaço a supermercados e cafeterias luxuosas).


Somado a esse pequeno detalhe (contém ironia) o público do colégio desagradava miseravelmente os moradores da região. Em sua grande maioria, a juventude negra e periférica adentrava o Corredor da Vitória todos os dias para estudar, usufruir da paisagem arborizada, tomar um sorvetinho e se dirigir até o porto ou a praça do Campo Grande depois das aulas na sexta feira. A presença que mobilizou olhares tortos, bolsas rentes ao tronco e corpo enrijecendo quando havia a necessidade de se cruzar, nunca foi bem quista e mesmo sendo um colégio recém inaugurado, desde cedo os rumores do seu fechamento se moldavam.


Mas não precisamos ir muito longe para pensar no quão desagradavel é, para os moradores ricos do bairro, conviverem diariamente - e dividirem seu espaço sagrado com a ralé mais desqualificada: estudantes secundaristas, ou seja, delinquentes.


Todos já sabiam que o Odorico iria fechar, restaria saber quando e sob quais circunstâncias. Hoje, a informação que mais motiva a curiosidade é o valor final arrematado quando o colégio for leiloado (promessa de que aconteceria ainda no ano de 2023). Segundo Rui Costa e Jerônimo Rodrigues todo o valor da venda do imovel será convertido em verba para a construção de novas escolas, localizadas nas periferias e subúrbio de Salvador (conto famoso, você acredita mesmo nisso?)


Retirar uma escola como essa do centro da cidade sob a promessa de que escolas seriam construídas bem lá longe de quem tem dinheiro me parece uma tentativa evidente de segregação. Entretanto, o discurso não foi esse. Segundo os governadores, os estudantes não deveriam precisar investir dinheiro de passagem de ônibus para estudar e a eles deveria ser assegurado o direito de terem boas escolas em seus bairros. Isso é verdade, os estudantes não deveriam pagar passagem para ir a escola, eles deveriam ter direito ao passe livre, algo que arduamente lutam para conseguir desde 2003[2].


Mas a questão que me propus responder no meu TCC, cujo objeto foi justamente esse colégio, diz respeito à razão pela qual a instituição fecha. Afinal, por qual motivo um colégio do porte do Odorico Tavares fecha? Outros colégios também vão seguir esse caminho? O que está havendo com a educação pública?


Primeiro que não é possível responder claramente o motivo pelo qual o colégio fecha, uma vez que, na verdade, estamos falando de uma engrenagem muito bem articulada para que isso aconteça. Uma movimentação velada e sutil que abre brechas para debates sobre especulação imobiliária, direito à cidade e o pertencimento do público jovem preto e periférico ao bairro de elite são apenas alguns aspectos a serem considerados. Numa perspectiva macro é importante levar em consideração um contexto educacional mais amplo, tomado de assalto pelo neoliberalismo e suas tendências obscuras à meritocracia, competitividade, individualidade e privatização.


Somando a essas considerações, a reflexão em torno do ensino médio é um debate importante a ser feito, pois estamos falando de uma etapa da educação básica que diante de toda a História da Educação sofreu com a instabilidade da formação de uma identidade bem articulada com o destino/objetivo da etapa. Afinal de contas, o ensino médio é para formar para o trabalho ou para a universidade? Mas como pensar a universidade em tempos onde a concepção de educação vem sendo modificada - de direito para mercadoria?


Quando um colégio fecha, a população sente e cobra o quinhão de educação que está sendo retirado da sociedade. Ainda mais quando falamos de instituições modelo, construídas para servir de exemplo a ser seguido por outros municípios e estados do país (como almejada Paulo Souto, idealizador do projeto).


O debate sobre o colégio Odorico Tavares ainda merece um pouco mais de atenção e ainda retornarei para atualizar sobre o dito leilão e suas promessas. Mas e você? Estudou, conhecia ou simplesmente se indignou com a história do fechamento do colégio?


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Notas:

[1] As produções dizem respeito ao documentário ‘’Entre o céu e o subsolo’’ de Felipe Borges (https://www.youtube.com/watch?v=0aCbQxpiFlM ), a tese de doutorado da professora Elisabeth Silva

(https://repositorio.ufba.br/handle/ri/29395 ) e ao meu trabalho de conclusão de curso da licenciatura em Pedagogia, apresentada no mês de julho de 2023 (https://repositorio.ufba.br/handle/ri/37719)

[2] Para outras considerações, veja o texto ‘’Só a luta vencerá a lama’’: 20 anos da revolta do buzu em Salvador, em: https://www.soteroprosa.com/single-post/s%C3%B3-a-luta-vencer%C3%A1-a-lama-20-anos-da-revolta-do-buzu-em-salvador


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