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PRECISAMOS CUIDAR DO TEATRO PROFISSIONAL DA BAHIA




A Bahia não tem emprego para artistas. Mas é quase uma sumidade que a Bahia gerou os maiores artistas dos últimos tempos.Exemplos não faltam e certamente vieram à sua cabeça muitos nomes de diversas áreas. Mas muitos desses artistas não estão na Bahia, pelo simples motivo, não há emprego. 


E os artistas que aqui estão? Os artistas baianos de uma forma geral estão desempregados, trabalham mas não têm emprego. Tem um monte de trabalho, desvalorizado, desrespeitado, ignorado, mas de grande impacto e transformador da nossa sociedade. No entanto, comprovou-se que o setor cultural gerou bilhões, muito mais que tradicionais mercados que são vistos como mais importantes e geradores de emprego, no senso comum, segundo o Itaú Cultural.


Eu faço coro ao professor e doutor da Escola de Teatro da UFBA Gil Vicente Tavares que sugere a ruptura entre a Arte e a  Cultura. São duas coisas quase uma dentro da outra, mas que precisam de tratamento diferenciado. O profissional da arte tem questões específicas e muito delicadas de mercado, que merecem uma visão peculiar.  


Se olharmos para os mercados culturais e artísticos de Salvador, vemos uma nítida diferença. Comparemos o Teatro e o Carnaval. A cultura das festas de rua movimentam o mercado de uma forma desordenada e ampliada, que não necessariamente tem a ver com a arte. Do outro lado, o Teatro é um mercado com uma linha de produção e economia mais definidos e sistematizados com uma experiência mais organizada, e espaços e agentes mais definidos. É muito desleal o quanto se investe na cultura do Carnaval, comparado ao Teatro que é ignorado em grande parte pelas esferas públicas e privadas, em quase todo o Brasil. 


Não há um pensamento político para o teatro profissional. Não há uma política de estado, e sim de partidos que ao seu bem entender e vantagem política fazem da cultura e da arte moeda de troca. 


Governadores e prefeitos já entenderam que não é arte e cultura que o povo quer, querem é protagonismo de suas questões. Embora temas como diversidade, LGBTQIAPN+, negritude e ancestralidade sejam cruciais para a humanidade, não devem limitar a criatividade dos artistas. 


A arte tem o poder de provocar, questionar e abordar uma variedade de questões, incluindo aquelas que não estão na moda. Pois a arte deve ser um espaço de expressão livre e diversificada para todos os interesses. Só tem dinheiro quem fala sobre a pauta da moda? Só é artista relevante quem domina essas pautas? E quem é dessas comunidades é obrigado apenas a falar disso? Ou a arte pode ser um elemento provocador de tudo, inclusive disso? Ou de outras coisas? 


Porque o estado exige ao artista aquilo que ele muitas vezes não exige no seu gabinete? Cadê a diversidade entre os secretários da cidade de Salvador, por exemplo??




Esta é mais uma maneira de perseguir o artista para fazer o que se manda. Estão tentando nos controlar para evitar o que? Somos tão perigosos que cada centímetro de orçamento e pauta devem ser controlados?


Não é à toa que o dinheiro de artistas deve ser regrado e conquistado a duras penas de edital. Será que estamos viciados em edital, uma forma única de acessar recursos. Para que nós fiquemos refém do fascismo seja de partidos ou empresas, que só falemos o que pode ser escutado. Temos uma Fundação chamada Gregório de Mattos em Salvador, o nosso Boca de Brasa, mas muitos políticos não aguentam dez minutos da poesia dele. Mas ele seria cancelado via falta de verba, falta de investimento, falta de oportunidade, algum influencer tomaria seu lugar pra levantar a trend. 


Não é à toa, que a classe de atores e atrizes está desmobilizada distante do sindicato. Ator fala muito e muito bem, se alguém os escutar pode ser que pensem melhor. A SATED BA não toma nenhuma atitude de mobilização, não tem nenhum projeto de organização e fica a mercê de que alguém faça alguma coisa, e ninguém faz nada. Precisamos reencontrar o caminho da luta coletiva de atuantes. Não é possível, que nossas atrizes e atores tenham que sair da Bahia para ter oportunidades e brilharem. Até quando vamos aceitar que produtoras e empresas explorem atuantes, até quando vamos aceitar cachês baixos, condições de trabalho ridículas e insustentáveis?? Até quando vamos morrer em subempregos porque atuar não sustenta?


Não é à toa, que existem poucos grupos de teatro, (muitos acabaram) e que quase não produzem espetáculos de forma continuada. Aqui, não existem mais subsídios programados e eficazes de manutenção de grupos, não está na lei a manutenção deles. Sabe por que? Porque grupos de teatro estão na maioria das vezes focados em produzir sua própria poética e falar de seus assuntos para além do comum. A quem interessa que atores e atrizes não pesquisem, pensem e produzam seus próprios conteúdos coletivamente? O quanto de dramaturgia, pensamentos, estéticas e criações cênicas estamos perdendo? 


Por que estudantes de Direção Teatral da UFBA quando se formam, automaticamente estão desempregados? Não tem companhias de teatro públicas, nem com apoio privado, não existem equipamentos de arte cênica públicos ou privados que possam recebê-los? Quantas cidades têm seus teatros e agora seus CEUS (que vão chegar) disponíveis, que poderiam ter ocupação de artistas organizando as cias de teatro, cursos livres, e intervenções gerando riquezas para cada município. E se diretores não têm emprego, atuantes também não terão. 


Enquanto, que teatros como ICEIA no Barbalho com 1300 cadeiras, continua desativado, demolidos, ou virando templo. Uma vergonha o teatro Solar Boa Vista largado, abandonado, sem segurança e sem programação. Assim como outros. Por que esse lugar ainda não é um centro de criação e produção de obras independente? Algumas vezes, vemos corajosas atividades, que se lançam ali, mas nada continua e nem prospera. Que desinteresse do estado que não toma conta daquele espaço.


Tudo isso porque não há política de estado, não tem orçamento pensado para isso. Apesar do presidente Lula mandar Jerônimo Rodrigues dispor de 2% do orçamento no início do ano passado, nada foi feito pelo secretário de Cultura gaúcho e jornalista Bruno Monteiro. Este que dizem viver pelas festas da Bahia, que bom que gosta e vive a vida plenamente, mas precisamos de trabalho. Lula mandou Jerônimo trabalhar, e cadê? Que pegue o orçamento prometido e transforme ações sérias para a cultura, melhor para a arte e a cultura do estado baiano. Tudo que foi feito agora na sua gestão foi apenas usar dinheiro federal, aí fica fácil, a propaganda ajuda. 


Enfim, esse desinteresse profundo pelas artes na Bahia é um grande sinal dos novos tempos do facismo, e ausência de diálogos. Enquanto tudo isso acontece, artistas estão morrendo de fome, estão abandonando a carreira e vivendo de migalhas. E a pergunta não se cala, até quando?  Para aqueles que querem lutar segue o convite abaixo. E em seguida para dar continuidade, espetáculos teatrais em cartaz no mês de Abril em Salvador.















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2 Comments

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Ótimo texto, Gilberto. Moro em Salvador há pouco tempo, mas é nítido como o teatro aqui é subvalorizado pelo poder público.

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Pelourinho Dia e Noite,Mercado Cultural,eram programas que incentivavam a arte e coletivos artísticos por aqui,mas tudo se findou. O fechamento do TCA por falta de manutenção por tanto tempo já diz muito sobre o descaso com a arte.

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