Ratched: Entre segredos e loucuras.

Um bom investimento numa história que gere uma boa trama é extrair personagens de conhecidos filmes e redirecioná-los para compor séries, criando outras impressões para esse protagonista. E exemplos não faltam. O doutor Hannibal Lecter de “O Silêncio dos Inocentes” em “Hannibal”; Sarah Connor deixa “O Exterminador do Futuro” para estrelar “Terminator”; o psicopata de “Psicose”, de Hitchcock, é retratado na sua adolescência em “Bates Motel”; mais recentemente, os lutadores Daniel Larusso e Johnny Lawrence de “Karatê Kid” retornam maduros em “Cobra Kai”. E, claro, Mildred Ratched.


Pra quem não conhece, ela é a enfermeira que tenta frustrar a influência do interno Randall McMurphy, interpretado por Jack Nicholson no clássico “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman, vencedor de cinco oscars (incluindo melhor filme, diretor, ator, e atriz, todos aqui mencionados). O drama se passa em um hospital psiquiátrico. O longa-metragem é de 1975 e quem a interpreta é a atriz Louise Fletcher. Na versão série, é a atriz Sarah Paulson. “Ratched” está em sua primeira temporada na Netflix.


Tudo se inicia com o assassinato brutal de quatro padres, que leva o homicida Edmund a ser aprisionado em uma instituição psiquiátrica (o ator Finn Wittrock consegue imprimir uma expressão sociopata incrível ao personagem). É aí que entra em cena a enfermeira, que irá lidar diretamente com esse indivíduo. Sua misteriosa aparição para trabalhar naquele local levanta um monte de suspeitas. Quem é ela? De onde surgiu? O que pretende? A Mildred do clássico de Forman era perversa e sádica. Como ela está retratada no formato seriado?


Apesar de focar em Mildred, a série também destaca a saúde mental e as tentativas de cura por parte do diretor do local, o doutor Richard Hanover, indeciso e estressado, recorrendo a entorpecentes tranquilizantes para se acalmar de tanta pressão. O internamento e as experiências da loucura chamam atenção para os procedimentos utilizados e a visão que se tinha sobre os acometidos. Passado em 1947, alguns diagnósticos daquele período hoje seriam absurdos. Mostra também como cidadãos “comuns” podem ter fantasias desatinadas, ainda mais em um período pós-guerra. Por fim, exprime estreitamentos políticos para conseguir recursos, a fim de que a entidade continue funcionando.


“Ratched” me fez relembrar a leitura da obra “A História da Loucura na Idade Clássica”, de Michel Foucault, que procura observar os mecanismos de tratamento e as concepções médicas em torno da loucura, contestados pelo filósofo francês ao longo do livro. É possível notar nas cenas de “Ratched” que alguns métodos parecem produzir a loucura, ao invés de curá-la.


Além de uma trama rica em desencadeamentos, personagens com múltiplas personalidades, e um desfecho indefinido, a série contém uma bela fotografia, cores vibrantes, e ótimas interpretações. Não deixe de conferir.





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