"TECNOAPATIA": Sintoma Crônico da Mercantilização
- Valéria Pilão

- 26 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

No mês de dezembro, foi divulgado pelo jornal Estadão que uma empresa de tecnologia criará um espaço físico tal qual um café para que usuários interajam com seus “companheiros de IA”. A proprietária do aplicativo de relacionamento baseado em Inteligência Artificial, a EVA AI, anunciou que seus usuários localizados na cidade de New York poderão interagir com seus “pares” num “date” num local criado única e exclusivamente para interações com personagens digitais.
Na descrição do ambiente a mesma matéria afirma que: “[...] o local contará com lugares individuais, cada um equipado com um suporte para celular, onde o usuário posiciona o telefone para conversar com seu parceiro virtual durante a experiência”. A leitura desta notícia causou em mim, mais uma vez, uma sensação de inquietude diante da naturalização da exacerbação do individualismo e da desumanização. Fico pensando e me perguntando: como não estamos discutindo esse tipo de situação de maneira ampla e coletiva? Que mundo vivemos que trocamos a convivência com um outro real, de carne e osso, por uma máquina? Como assim, um espaço físico para uma suposta interação com uma máquina?
Não me cabe desenvolver argumentos do ponto de vista psicológico, pois tenho conhecimentos limitados nesta área. No entanto, do ponto de vista antropológico ou sociológico, devemos problematizar a situação descrita acima a partir da relação entre indivíduo e sociedade, principalmente, da constituição do ser social.
Um outro, uma parceira ou um parceiro é o que é; não como eu quero. Numa relação amorosa ou mesmo de amizade, nos interessamos por aquilo que o outro é. Apesar do amor, da admiração e da amizade, o conflito e diferenças são constitutivas. Não há nenhum tipo de relação sem divergências. A beleza das histórias experienciadas é a cumplicidade bem como a organização e respeito a esse outro que é distinto de você. O outro nunca será exatamente aquilo que se espera e quer dele. É na incompletude que nos organizamos, nos constituímos; é por meio desta relação que nos humanizamos, desenvolvemos a alteridade e capacidade de superar frustações.
As relações concretas da sociedade capitalista nos levam a viver diferentes formas de estranhamento, resultado da mercantilização e coisificação de nossas relações sociais e seus desdobramentos. A medida em que o capital se expande, cria novas mercadorias e novos consumidores. É sabida a necessidade de criação de uma subjetividade adequada ao tipo de mercadoria produzida.
Num momento em que as tecnologias medeiam nossas relações como se fosse impossível vivermos sem dispositivos, quando objetos como smartphones tornam-se extensões de nossos corpos, no tempo em que os objetos informacionais e eletrônicos são de consumo individual e uma suposta vida virtual toma mais tempo do que o dispêndio de energia com a vida real, naturaliza-se que um indivíduo desenvolva qualquer tipo de relacionamento com uma máquina.
É nesta mesma sociedade que também se naturaliza o achatamento das capacidades cognitivas, intelectuais e motoras decorrentes do uso inquestionado das tecnologias de informações e de uma suposta inteligência artificial. Estamos sob égide da profecia das tecnologias como promotoras do desenvolvimento, pois se crê que elas são as detentoras de todas as respostas as necessidades e mazelas humanas.
No capitalismo, naturalização e mercantilização da vida andam de mãos dadas. Tudo o que se transforma numa mercadoria aparece como resultado do chamado progresso humano. No entanto, aquilo que nomeamos como progresso, ainda que tenha embasamento científico, não é dogmático e pode - e deve - ser questionado, desde que a partir de métodos também científicos.
A Ciência pode ser nossa arma para desvelar e transformar o real, mas antes é preciso que haja questionamentos e, portanto, tenhamos curiosidade, rompendo com a “tecnoapatia” que capturou o corpo e o espírito de quase todos. A criação de um espaço de interação entre humanos e máquinas bem como a interação entre uma coisa e um humano, reproduzindo as relações sociais, precisam ser problematizadas. Caso contrário, estamos fadados à abdicação de nossa condição humana e de nossa relação com a natureza.
FONTE:



Incrível a simplicidade como expõe ainda mais o estranhamento.
excelente reflexão e questionamentos. a obsolescência humana parece crescer assustadoramente, sem resistência e sem qualquer perplexidade!
Excelente reflexão