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TEMPO, TEMPO, TEMPO, MANO VELHO!




* Por Stefanie Moreira


Ei, você aí.. se prepare, pois eu vou problematizar a ação que você está fazendo nesse exato momento! Mas calma, não pare de ler esse texto! Continue e iremos chegar juntos à conclusão de que talvez seja hora de colocar o celular de lado um pouquinho e olhar mais ao seu redor! Nem que seja por alguns minutos!


Não vou problematizar o fato de você estar lendo esse texto, jamais! Quero, no entanto, te perguntar se você já se deu conta de quanto tempo você gasta olhando para telas! Seja a tela da tv pra ficar por dentro das notícias ou se distrair com um Netflix, do computador pra trabalhar, ou de tablets ou celulares para se conectar as redes sociais e navegar na internet de maneira despretensiosa!


Sabemos que a tecnologia é algo que veio para ficar e que ela facilita a nossa vida em diversos aspectos. Hoje muitas pessoas preferem a comodidade de trabalhar no conforto do seu lar, por meio do home office, a se deslocar para uma reunião presencial. Além disso, a tecnologia nos auxilia, e muito, quando o assunto é nos conectar a quem está longe, sendo possível acompanhar a rotina do outro por meio de fotos, fazer videochamadas para bater papo e conversar sobre a vida, ou ainda curtir um lazer juntos como por exemplo, marcar de assistir um filme ou uma série, enquanto conversa sobre o que tá rolando por meio de mensagens no celular. Porém, esse excesso de telas acaba se tornando um problema quando faz com que as pessoas se desconectem com o que se passa ao redor, no campo físico e real, quando passa a ser uma fuga da realidade, uma fonte de procrastinação excessiva, desperta ansiedade e distúrbios psicológicos ou causa vícios e outros problemas a nossa saúde mental.


Desse modo, embora praticamente todas as esferas da nossa vida estejam rodeadas por telas, é necessário lembrar que, quando em excesso, as telas podem causar impactos à saúde mental!


Em crianças e adolescentes o uso excessivo de telas pode prejudicar o amadurecimento cerebral saudável, afastá-las do mundo real, limitando o contato com seus pares e o desenvolvimento de outras atividades, como leitura, brincadeiras e jogos no mundo off-line. Em adultos, por sua vez, o uso excessivo de telas pode estar ligado a um aumento da ansiedade, sentimento de desconexão e solidão, além de poder se tornar um vício em casos extremos. Esse vício em telas, principalmente ao uso do celular, é chamado de nomofobia e pode gerar sintomas físicos que se parecem muito com uma crise de ansiedade ou a uma abstinência ao uso de substâncias, como por exemplo, falta de ar, taquicardia, sudorese, ansiedade, irritabilidade, hiperatividade e até problemas gastrointestinais (Conexa Saúde, 2022).


Assim, saber impor limites ao tempo de tela é uma necessidade dos dias atuais. Isso não quer dizer que você vai se desconectar de quem está longe, ou vai abrir mão dos benefícios do trabalho remoto, mas lembrar de que volta e meia será necessário tirar um tempo de folga para o meus olhos e sua mente dos inúmeros estímulos produzidos pelas telas.


Complementarmente ao uso de telas, o uso excessivo das redes sociais também pode causar prejuízos à saúde mental ao passo que somos bombardeados diariamente por um excesso de informações, agradáveis e desagradáveis, de maneira concomitante. Quem nunca se pegou rolando o feed de maneira automática, mal processando tudo que vê. A diversidade de posts que acompanhamos em uma hora de consumo em uma rede social, por exemplo, desperta na gente emoções diversas como felicidade, satisfação, tristeza ou raiva, sem que a gente consiga dar vazão a tudo que vemos.


O excesso no uso das redes sociais também tem sido bastante estudado e seus efeitos na saúde mental já tem um nome próprio: FOMO, “fear of missing out”, na expressão em inglês, que pode ser traduzida como “medo de perder algo”. A médica psiquiátrica do Hospital Sírio Libanês e da Caliandra Saúde, Camila Magalhães Silveira explicou em uma entrevista realizada ao Folhapress que o FOMO se assemelha com a sensação de ansiedade, porém, contendo dois aspectos principais: O primeiro é a sensação de que as outras pessoas estão tendo muito mais prazer, satisfação e retorno na vida, causando assim apreensão no indivíduo. O segundo seria a percepção do indivíduo de que necessita saber o que está acontecendo com os outros, o que aumenta a ansiedade (Mariana, 2021).


Assim, essa montanha russa de emoções que as mais variadas notícias (uma seguida da outra) nos despertam se traduz em um excesso de estímulos com os quais, muitas vezes, não sabemos lidar. Esses estímulos não processados se transformam em ansiedade, maior comparação com os outros, podem ter efeito negativo em relação a maneira como as pessoas desenvolvem a sua própria auto imagem, podem contribuir para o sentimento de isolamento do mundo real, gerando um senso de urgência e necessidade de presença que ocorre decorrente da necessidade de responder a todas as notificações que surgem e, por fim, tomam uma boa parte do seu tempo ao final do dia.


Quem aqui nunca foi olhar as horas, se deparou com uma notificação das redes sociais, passou horas rolando o feed e depois ainda saiu do celular sem saber que horas eram? É raro, mas acontece muito, né mesmo?


É possível verificar essa automação dos comportamentos em outras situações também. Esses dias eu me peguei comendo apressada mesmo tendo decidido tirar uma hora de almoço e aproveitar esse tempo para assistir um capítulo de uma série. Nesse momento eu pensei, se eu tenho uma hora para almoçar, porque estou comendo tão depressa!?


Isso já aconteceu com você, caro leitor? Creio que sim, tendo você dado conta, ou não!


O fato é que muitas vezes fazemos tudo tão no automático (como rolar o feed sem se dar conta do que de fato está vendo ou pensando naquele momento) que nem ao menos percebemos esses nossos comportamentos acelerados. Realizamos mais de uma tarefa ao mesmo tempo, dividimos nossa atenção para várias coisas e no final, do que você se recorda mesmo? Será que estamos vivendo o presente da maneira mais adequada?


Você com certeza já ouviu falar que o nosso bem mais precioso é o tempo, pois ele é finito. E, por isso mesmo, devemos fazer bom uso dele. Mas será que estamos realmente aplicando isso na prática?


Tenho ouvido cada vez mais pessoas falando que 24hs por dia não é mais suficiente e que necessitam de mais algumas horas no dia para cumprir todas as tarefas diárias. Daí, você pode concordar e me falar que a sua rotina é muito corrida, que seu trabalho suga todo o seu tempo, que ao final do dia não sobra ânimo para realizar nenhuma atividade, além do descanso e preparo (físico e mental) para o próximo dia de trabalho. Eu te entendo, caro leitor! Mas perceba, que não é à toa que a ansiedade é uma queixa tão recorrente nos consultórios de psicologia. As pessoas não estão vivendo no hoje!


Aqui, compreendemos a ansiedade como sendo uma antecipação de uma ameaça futura e está relacionada à emoção de medo. Esta por sua vez, diz respeito a uma resposta emocional a uma ameaça iminente real ou percebida. A ansiedade deve ser vista, então, como um sistema de resposta cognitiva, afetiva, fisiológica e comportamental complexo, que é ativado quando eventos ou circunstâncias antecipadas são consideradas altamente aversivas porque são percebidas como eventos imprevisíveis (Clark & Beck, 2012). Não somente a ansiedade que é adaptativa e inerente ao ser humano, mas a ansiedade que causa algum tipo de inconveniente na vida de quem a sente com intensidade.


Assim, acredito que a alta demanda relacionada à queixa de ansiedade se deva ao uso excessivo de telas, ao tempo cada vez mais elevado no uso das redes sociais e aos comportamentos automatizados que estamos realizando cada vez mais, sem nos dar conta. Por isso, creio que cabe uma reflexão sobre a importância da gente se ligar na gestão do nosso tempo.


Num dia corriqueiro de estudos eu me deparei com a seguinte frase: “A preocupação da sociedade pelo tempo pode ser também um sinal de quão equivocada está a forma de calcular o que tem valor” e ela martelou em minha cabeça por uns bons dias. Creio que lidar com o tempo seja uma arte e, por isso mesmo, requer de nós um uso eficiente de nossos recursos de tal forma que sejamos bem sucedidos em conseguir alcançar objetivos pessoais importantes, como por exemplo, tirar um tempo para atividades sociais, de lazer, para a realização de exercícios físicos e o cultivo de relações afetuosas desaceleradas. Você já deve saber, mas não custa lembrar que a falta de tempo dedicado aos interesses pessoais costuma ser um dos estímulos estressantes mais frequentemente citados pelas pessoas. Ter tempo para si e para a família tem, normalmente, o efeito desejável de reduzir os níveis de estresse subjetivo.


Assim, te convido a voltar a sua atenção para o momento presente e exercitar o estar no aqui e agora. Essa prática é utilizada como base para o Mindfulness que é apresentada como uma atenção concentrada no momento atual, chamada também de atenção plena e consiste numa meditação que foca no treinamento da mente que leva o indivíduo a uma integração completa entre mundo externo e interno (mente e corpo) e a conexão com os sentimentos e emoções presentes naquele momento.


Mas daí você pode me falar: “Stefanie, mas tudo que eu queria agora era me desligar. A minha rotina, a minha vida já é pesada demais e me conectar ainda mais com o que está a minha volta poderia me trazer mais malefícios que benefícios! Tem momentos que eu só quero me anestesiar!”


E vou te falar, é por isso que fazer terapia é importante. A gente entra em um modo automático tão extremo que a gente só consegue perceber as mazelas da vida! A gente centra a nossa atenção naquilo que queremos confirmar! Se eu penso que a minha vida está horrível, percebo com mais facilidade coisas no ambiente que vão confirmar esse meu pensamento! Saber mudar o foco, prestar atenção nas pequenas coisas ao seu redor que te trazem alegria, pensar no que houve em sua semana que deixou você minimamente feliz ou te trouxe boas lembranças, conseguir vê beleza na vida apesar do caos ao qual somos expostos diariamente é um exercício e uma decisão!


Então reafirmo o meu convite! Exercite o estar no aqui e agora! Se há algo que você sente e lhe incomoda, não tente apenas afastar essa sensação, emoção ou sentimento! Mas permita-se sentir, permita-se viver, afinal a vida é constituída de momentos bons e momentos não tão bons assim. E devemos viver concretamente todas as fases lembrando que isso também passa!


Assim, convido você a saborear a comida com mais calma, sentindo os sabores. Convido você a observar as pequenas coisas com carinho e atenção. Convido você a olhar nos olhos de quem está próximo a você, em presença, ao invés de conversar com alguém mantendo o seu olhar em telas. Convido você a se conectar com pessoas ao seu redor e com as distantes também de maneira genuína, demonstrando afeto e atenção. Convido você a olhar pra sua vida sem comparações, se lembrando que o que você tem feito é o melhor que você pode fazer nesse momento!


Convido você a estar presente no presente!


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Stefanie Moreira. Doutoranda em psicologia pela UFBA. Instagram: stefanie_oliver




REFERÊNCIAS:


Clark, D. A., & Beck, A. T. (2016). Terapia Cognitiva para os Transtornos de Ansiedade: Tratamentos que Funcionam: Guia do Terapeuta. Artmed Editora.

Mariana A. (2021) Redes sociais: uma montanha-russa de emoções. E a saúde mental? Da redação com Folhapress. Publicado em 24/10/2021. Acessado em: https://paraibaonline.com.br/entretenimento/2021/10/24/redes-sociais-uma-montanha-russa-de-emocoes-e-a-saude-mental/

Conexa Saúde. (2022). Redes sociais e saúde mental: influência e impacto dessa relação. Acessado em: https://www.conexasaude.com.br/blog/redes-sociais-saude-mental/

Oliveira Mesquita, T., & Furtado, T. M. (2019) Tratamento da ansiedade através da aplicação de técnicas mindfulness: Uma revisão de literatura.

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2 Comments

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Pratico o mindfullness há um tempo, até antes da invasão das telas. É o que todos precisamos! Recomendo muito o vídeo abaixo. Foi um dos primeiros que mostrou a importância do aqui e agora. É sobre a meditação em um instante: https://www.youtube.com/watch?v=IPrOlrYHsoQ&t=2s

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
Mar 30, 2023

Me sinto automatizado o tempo todo,mas nunca refleti sobre isso. Lendo seu artigo,me dei conta.

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