UMA REFLEXÃO DO TEXTO INTITULADO: "uma análise do texto 'já consigo ver Flávio presidente"
- Alan Rangel

- 16 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de abr.
O texto que irei analisar foi produzido pelo nosso colega da Soteroprosa, Everton Nery. Ele faz duras críticas ao texto do colunista Carlos Cardoso, escrito em 27 de março. Outro texto de Cardoso intitulado “Como devemos agir para Lula se reeleger”, foi publicado em 10 de abril.
O texto de 27 de março traz um tom bastante preocupante, com dados e fatos recentes que colocam em risco a possível vitória do atual presidente do Brasil. Ele precisaria apontar melhor as fontes dos dados, que ficam isoladas no final. Mas, tudo bem. Cardoso não utiliza sofisticação teórica, pois não cita autores: ele apenas descreve situações e apresenta opiniões. Contudo, não me parece um texto com alguma intenção oculta por trás. Não há uma arquitetura conceitual elaborada intelectualmente para convencer os leitores de que o único caminho possível é a vitória de Flávio Bolsonaro, apesar das críticas ao governo Lula. O texto tem um teor mais pragmático, agarrando-se a alguns dados reais.
Depois, Cardoso escreveu o texto de 10 de abril, defendendo-se de críticas que o acusavam de ser um planfletário de Bolsonaro, de esconder interesses reacionários ou de fingir imparcialidade. Ele também se defende da imagem postada no primeiro texto.
O segundo texto publicado por Cardoso carece de utilizar melhor as fontes de cada dado citado, para que o leitor veja o rodapé correspondente ao fato mencionado. Assim, o leitor teria facilidade na consulta. Há muitos fatos citados, mas sem referências no final do texto.
Qual o problema do texto de Nery, publicado em 8 de de abril? Não é analisar se os fatos são inconsistentes ou se as referências citadas por Cardoso são problemáticas. Tampouco é apresentar outro viés sobre a possível vitória ou derrota de Lula. O problema reside em adotar uma “filosofia da suspeita”, focando na intenção do autor por trás da obra — o que podemos chamar de hermenêutica da suspeita. Qual o perigo disso? Não propor nada em substituição. Acabamos caindo em um vazio empírico.
“Ele tenta se reposicionar como defesa, mas, ao fazê-lo, acaba reiterando, ainda que de modo invertido, os mesmos mecanismos discursivos que estruturavam o texto anterior”.
Aqui fica evidente que a questão se reduz ao discurso. O mais importante é tudo o que está por trás, nos bastidores. Portanto, os “mecanismos discursivos” são interpretados como intenção capciosa ou desajeitada do autor, Cardoso. Em vez de uma aproximação aos fatos, refutando-os um a um, Nery prefere o caminho da suspeita retórica.
“Assim, o texto-resposta não anula o problema do texto anterior, ele o desloca. Sai do campo da suposta promoção de um candidato e entra no campo da autolegitimação discursiva, tentando se blindar pela ciência, pelos dados e pela intenção declarada. Mas, no fundo, permanece atravessado pela mesma questão: a linguagem não apenas reflete o mundo, ela o constrói”.
Ou seja, os dados são abandonados, e o mais importante passa a utilização da carta coringa: “a linguagem não apenas reflete o mundo, ela o constrói”. O que isso significa? Cardoso está preso na gaiola de ferro weberiana de uma ontologia da suspeita, na qual não há escapatória.[1] Toda ação tem uma intenção. Qual o papel do intelectual? Desvendar a lógica da estrutura, da sociedade e dos discursos. O intelectual ( a exemplo de Nery) se coloca em uma posição que lhe permite olhar por cima e desocultar os interesses nos bastidores da escrita — o que “está no fundo”.
Eis o problema de se afastar dos fatos e da via pragmática. Os fatos apresentados por Cardoso viram mera nota de rodapé, e Nery se coloca na missão de “revelar a face obscura do autor” — que, supostamente, apoia, mesmo sem querer, o capital político da extrema-direita bolsonarista.
“Não se trata de julgar a intenção do autor, mas de compreender que, mesmo quando ele diz apenas ‘observar’, ele já está, inevitavelmente, participando daquilo que diz. Elabore textos (comentários) usando os dispositivos conceituais existentes em Algirdas Julien Greimas, Roland Barthes, Paulo Freire e Friedrich Nietzsche".
Nery, nesse ponto do texto, tenta se defender de possíveis críticas, mas, ao mesmo tempo, coloca Cardoso de novo na armadilha da camisa de força, na gaiola de ferro da ontologia da suspeita: “mesmo quando ele diz apenas ‘observar’, ele já está, inevitavelmente, participando daquilo que diz”.
Para concluir, considero importante sempre voltar aos fatos concretos, realidades empíricas, e tentar encontrar inconsistências, quando elas existirem. É mais prudente analisar dado por dado citado pelo interlocutor. O contráro disso, no limite, pode gerar dúvidas paralisantes sobre a prática das instituições, atores políticos e sociais. A filosofia da suspeita, originalmente um instrumento analítico sofisticado, foi reaproveitada fora da academia e, frequentemente, vulgarizada, por nichos da direita e esquerda, para negar a objetividade dos fatos em si, transformando qualquer evidência em mera construção discursiva
______________________________________________
Referências
[1] O conceito de gaiola de ferro foi cunhado pelo sociólogo Max Weber para designar a prisão inescapável da racionalidade instrumental moderna: uma estrutura hiper-racionalizada — marcada pela burocracia e pelo desencantamento do mundo — que, paradoxalmente, sufoca a liberdade e o sentido existencial do indivíduo.

Comentários