AS RESTRIÇÕES DE SMARTPHONES NO ENSINO SUPERIOR E SUAS CONTRADIÇÕES.
- Valéria Pilão

- 24 de abr.
- 3 min de leitura

Há pouco mais de um ano, escrevi um texto aqui no portal Soteroprosa sobre as contradições existentes entre a proibição do uso de smartphones na educação básica e o fato deste aparelho mediar a nossa vida cotidiana. Enquanto somos socialmente ensinados a organizar a nossa vida se utilizando deste aparelho e de seus aplicativos, há muitas pesquisas indicando o comprometimento cognitivo que o uso prolongado de tais tecnologias traz ao processo de aprendizado e a cognição.
Neste ano de 2026, algumas instituições de ensino superior também estatuíram restrições no uso das tecnologias informacionais em sala de aula. Pelo menos no Brasil, esta é a primeira iniciativa que tenho conhecimento de controle do uso de tais equipamentos entre adultos. A notícia da conta que a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em sua Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp), já havia restringido o uso de smartphones em 2025, nos cursos de Administração Pública e calouros de Administração de Empresas. ESPM e Insper, cada uma com seu modelo, buscam restringir o uso de tais aparelhos para proporcionar a melhor formação para um desempenho de excelência dos futuros profissionais.
A ESPM criou normativa que limita o uso do smartphone bem como do lap top e tablets em sala de aula. Estes equipamentos só podem ser utilizados quando liberados para finalidades acadêmicas e se algum aluno descumprir esta regra, estará sujeito a advertência. Segundo a IES, a tentativa é a de restringir o uso destes dispositivos eletrônicos diante dos seus impactos sobre atenção, saúde mental e capacidade de concentração. No mesmo documento é mencionado o “sedentarismo cognitivo” em decorrência ao uso passivo das tecnologias digitais.
Julgo interessante apontar que estas medidas ocorrem em instituições de ponta do ensino superior privado do país e estão em consonância aos argumentos de pesquisadores e estudiosos que indicam um comprometimento do aprendizado em decorrência do uso das telas. A esse respeito, a psicolinguista americana Maryellen MacDonald aponta para o fato de que a expressiva redução da comunicação entre os jovens, em função de estarem imersos em seus aparelhos, compromete as habilidades de comunicação bem como a memória e capacidade de regular emoções.
Uma das alterações perceptíveis segundo esta pesquisadora no comportamento dos jovens diz respeito a relutância em participar de interações presenciais. A este respeito a matéria da BBC Brasil traz dados do relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2022, afirmando que apenas 36% dos jovens, dos países membros, afirmavam que interagiam de forma presencial diariamente. Em 2006, eram 53% dos jovens. Esta pesquisa indica que há uma transformação em curso no comportamento humano em função das tecnologias digitais e do uso dos aparelhos eletrônicos e informacionais muito significativa. Nesta toada, em outra publicação, em dezembro de 2025, apontei a tecnoapatia como um sintoma da mercantilização da vida e do uso das tecnologias informacionais de maneira reiterada, ao ponto de serem construídos espaços especiais como um café para a interação entre um humano e seus “companheiros de IA”.
O que estamos acompanhando, é a mudança profunda nas formas de ser e estar que indica a precarização daquilo que nos faz mais humanos: o fato de sermos seres sociais. E, ainda que estejamos num processo inconcluso, as tendências apontadas por centenas de pesquisas não são promissoras. Certamente, como temos consciência da nossa existência e somos sujeitos de nossa história, temos condições de fazer escolhas e, neste sentido, convém, urgentemente, pensarmos qual é o nosso projeto societal. Para onde queremos caminhar enquanto sociedade?
Sem respondermos a esta pergunta de maneira coletiva, a existência humana caminha em moto perpetuo para um lugar desconhecido, mas perigoso e de embotamento de parte da população. As escolhas feitas pelas IES de ponta buscam promover o desenvolvimento intelectual e, por isso, potencialmente permitem que seus alunos assumam melhores postos de trabalho. Por outro lado, a plataformização da educação nas instituições de ensino que atende a outros estratos da sociedade, tendencialmente, não promovem os mesmos resultados. Portanto, diante das medidas anunciadas e implementadas pelas IES, temos a demonstração de que a agudização da desigualdade socioeconômica também se expressa no acesso excessivo às novas tecnologias para, supostamente, permitir o aprendizado.

Comentários