HOLLYWOOD QUER TE ENGANAR!!!



Lembra do filme ou série mais recente assistido por você? Sem dúvida, a resposta é SIM, ÓBVIO!! Talvez tenha visto algo ontem, nessa semana ou na anterior. Já percebeu a crescente inclusão de pautas de esquerda (progressistas), como debates sobre raça, gênero, violências de classe, representatividade, LGBTQIA+, além de muitas outras? Hollywood hoje parece um grande celeiro do progressismo, cenário muito diferente da sua versão da década de 40, descrita em detalhes por Adorno em sua estadia nos Estados Unidos. Como resultado, podemos concluir que ao longo das décadas a indústria cultural se inclinou mais à esquerda, contrariando as previsões da escola de Frankfurt, certo? ERRADO!!! Apesar de sua pose progressista, e de sua tentativa desesperada em fazer parte de um mercado consumidor faminto por debates identitários, Hollywood é mais conservadora do que nunca, perdendo até mesmo a chance de produzir algum impacto no mundo. Aqui seguem cinco grandes motivos da completa ineficiência hollywoodiana, ao menos quando tenta incluir pautas progressistas em seus filmes.


Problema político: Não sei se você já percebeu, mas Hollywood parece ter pressa em encaixar pautas progressistas, como se estivesse correndo contra o relógio, o que torna tudo superficial e muito grosseiro, sem qualquer tipo de polimento. A urgência em atender um mercado consumidor cada vez mais diverso, e que reconheceu as lutas identitárias como um importante capital a ser acumulado, força Hollywood a incluir debates políticos sem qualquer atenção, quase como se estivesse apenas realizando uma tarefa obrigatória numa longa lista de deveres. “Vamos colocar uma fala empoderada aqui”, “Vamos incluir uma cena LGBTQIA+ lá”, “vamos trazer uma representatividade acolá”, dizem os executivos obcecados por suas planilhas repletas de números e porcentagens. Como consequência, falas e cenas deixam de ser orgânicas, como partes naturais do enredo, e das próprias características dos personagens, e se tornam traços forçados, artificiais e até incoerentes, a exemplo da luta entre She-Hulk e Hulk no início do primeiro episódio na nova série da Marvel. A obra The Boys, na Prime Vídeo, retrata muito bem essa instrumentalização das lutas identitárias, em especial quando enxergamos seu enredo como uma grande paródia dos filmes da Marvel e de todo um mercado cinematográfico contemporâneo.


Problema estético: Ao invés de serem tratadas como um ingrediente importante dentro de um filme, como uma substância que se incorpora de forma espontânea na estrutura do enredo, a exemplo de Corra e Nós de Jordan Peele, ou até mesmo Parasita de Bong Joon Ho, as pautas políticas parecem perder o eixo e a proporção. Ao invés de um acréscimo que potencializa a experiência cinematográfica, a política se torna a matriz que organiza cada detalhe da narrativa, subordinando tudo aos seus padrões específicos de funcionamento. O resultado desse descuido estético é muito simples e óbvio: a) personagens sem nenhuma profundidade psicológica, sendo apenas representações coletivas de grupos (O NEGRO, O GAY, A MULHER, etc), b) protagonistas perfeitos, atomizados, e sem qualquer senso de progresso ao longo do enredo (arco), o que chamam de perfil Mary Sue, uma característica do feminismo liberal. Além disso, observamos c) vilões genéricos, nada mais do que pacotes abstratos, simples pretextos, como o HOMEM MISÓGINO, RICO, BRANCO e RACISTA, d) ou simples enredos previsíveis, sem qualquer traço de originalidade. Essa é a sensação de assistir filmes e séries hollywoodianos, ao menos sua maioria: tudo se torna previsível, ainda que preencha alguns minutos do nosso entretenimento. Embora muitas vezes divertidos, e não tenho como negar isso, são filmes e séries que desaparecem na memória com muita facilidade, além de deixarem um tipo de vazio não preenchido, como se fossem um tipo de bebida com gin: é prazerosa, refrescante, preenche bem seu tempo, mas deixa no final um gosto meio amargo na boca.


Problema epistêmico: Pensando em um ponto de vista mais sociológico, os filmes acabam não oferecendo muito material de análise, já que no fim das contas apenas oferecem uma versão superficial de debates acadêmicos, quase sempre de abordagens pós-estruturais simplificadas ao extremo, sem o mínimo de complexidade necessária. Filmes e séries se tornam produtos apressados e rústicos de reflexões sociológicas, nada mais do que um aperitivo muito superficial de discussões científicas. Ao se arriscarem no campo das ciências sociais e humanas, esses filmes e séries passam uma imagem distorcida de um campo científico complexo, apenas instrumentalizando suas fronteiras de acordo com interesses pontuais, como se a ciência fosse uma simples ferramenta conveniente que legitima e justifica inclinações privadas de indivíduos ou grupos. Em resumo, a ciência é aqui reduzida a um mero pacote de frases de efeito e conclusões previsíveis, apenas um cobertor seguro e quentinho que garante minha estabilidade psíquica e social.


Problema econômico: Como resultado dos obstáculos descritos acima, muitas séries e filmes são canceladas pela péssima recepção, desincentivando até mesmo futuras propostas verdadeiramente progressistas que poderiam surgir. Como Hollywood ainda funciona na base do retorno financeiro, ainda que outros marcadores existam, o dólar continua sendo um poderoso juri. Caso ele não apareça em quantidades razoáveis, compensando todo um custo inicial de produção, os investimentos são imediatamente cortados, não importa a relevância da série ou filme. Por não oferecerem produtos de qualidade, mas apenas pacotes superficiais e apressados de narrativas, Hollywood atira em seu próprio pé, destruindo a si mesma. O curioso é o quanto o capital identitário é sempre uma faca de dois gumes. Se for usado de forma eficiente, potencializa o enredo, satisfaz público e crítica, além dos investidores (Corra, Nós, Parasita, Infiltrados na Clan, The Sandman, Mulher Maravilha, Wandavision). Por outro lado, se construído de forma descuidada e amadora, apenas produz efeitos negativos e cancelamentos (She-Hulk, Capitã Marvel, Hawkeye, Charlie’s Angels, Batgirl).


Problema reacionário: Ao utilizar de forma muito superficial suas pautas políticas, Hollywood apenas instrumentaliza figuras preconceituosas que buscam simples pretextos de crítica. Na medida em que propagam sua mensagem de forma apressada e sem qualquer polimento político ou estético, grupos reacionários apenas se fortalecem pelos quatro cantos da internet, ganhando corpo, energia e popularidade. Circunstância essa muito irônica, já que a tentativa de combate a valores reacionários apenas produz, a longo prazo, mais valores reacionários, ao menos quando a batalha é feita de forma descuidada, com ferramentas amadoras ou antigas. Por isso que muitos filmes e séries hollywoodianos, embora se apresentem como progressistas, são simples produtos conservadores mascarados de progressismo, lançando gasolina no fogo dos reacionários, ao invés de colocar um fim nele.


No fim das contas, Hollywood torna as pautas de esquerda superficiais, risíveis e abertas a críticas traiçoeiras e desnecessárias. Embora Elizabeth Banks tenha dito que o fracasso do seu “Charlie’s Angels” foi resultado direto da misoginia do seu público, o fato é que a própria diretora criou um filme de péssima qualidade, não apenas em termos estéticos, mas até mesmo políticos e epistêmicos; um filme incapaz de se conectar com qualquer um, até mesmo com o próprio público de esquerda. Ao invés de assumir a responsabilidade por suas falhas, Elizabeth Banks, uma feminista branca e liberal, usa o feminismo como uma simples manobra justificatória, apenas reforçando tudo o que foi dito nesse ensaio.


Um filme progressista não é apenas uma obra com temas progressistas. É preciso observar seus contornos estéticos, epistêmicos e tudo aquilo dentro do seu território, caso contrário, vamos ter simplesmente um progressismo como máscara, recheado com uma essência reacionária e perigosa.




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