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VIVENDO DE PASTO SEM TER UMA GRAMA: A CIDADE ABURGUESADA




A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.


Atualmente, a cidade de Salvador vem passando por diversas obras públicas em inúmeros bairros, sob a justificativa de melhora em aspectos como a mobilidade urbana e maiores possibilidades de lazer. Diante de tanto discurso de melhoria em cima de melhoria, penso no que está por trás disso tudo.


Ora a obra nos alegra com a possibilidade real de melhoria na qualidade de vida dentro da capital caótica, ora nos enche a paciência com tanto baticum errado na mente.


Quando os tapumes de zinco surgem, já sabemos que algo será preparado. Sobre isso, faço referência a uma pracinha que havia perto da minha casa, ponto de encontro de jovens, idosos, desocupados e cães, que foi de arrasta pra cima com a obra do BRT em que o bairro tem sido submetido.


Pensar nos diminutos espaços de lazer que compõem a cidade e precisar ir além, refletindo como a cada dia eles vão se tornando mais escassos, sobretudo, pelo aburguesamento e gentrificação em determinadas áreas, é um dos pontos chave para compreendermos a perda do nosso direito à cidade.


As ruas são nossas, as praças são nossas, os espaços que formam a cidade são nossos, mas tudo parece escorrer pelas nossas mãos quando os grandes tapumes se instalam.


Afinal, para além da violência urbana, os direitos de usufruto da cidade estão sendo violados.


Nosso direito à moradia, ao trabalho, ao lazer, à possibilidade de ir e vir estão sendo tomados de assalto quando a mobilidade e o transporte urbano são serviços extremamente precarizados; quando espaços destinados ao convívio da comunidade são destruídos sem realojamento ou quando geografias neoliberais tomam conta dos bairros de forma descarada (vide a mudança do Terminal Rodoviário e do Detran, pois a necessidade de construções verticais para a moradia são uma prioridade mais rentável, entre outros exemplos visualizados a olho nu).


Castrogiovanni hablou em 2000 como a cidade deveria ser uma representação da consolidação humana, representada por uma série de indivíduos diversos, porém, a realidade marcada pelo neoliberalismo tem se mostrado totalmente diferente do que este e inúmeros outros pensadores têm pontuado a respeito da potencialidade simbólica da ocupação dos espaços da cidade.


Milton Santos (1998) fala da urbanização corporativa e assistimos a esse fenômeno na pele quando os destinos da cidade são decididos pelas grandes empresas que precisam calcular o que é mais favorável para continuar enchendo o bolso de quem já tem muito dinheiro.

Atrapalhar a vida do cidadão de bem é gincana e vence a organização que tiver mais pontos no score.


Para nós, quais espaços sobram para irmos nos divertir no dia de folga da miserável escala 6x1? O Shopping center? Sem um verde, sem uma luz natural, sem nenhum relógio nas paredes. É claro que sim, afinal, você gasta mais dinheiro em shoppings ou em parques?


No meu texto ‘’Guia para se tornar um milionário: natureza em debate’’ [1] procuro fazer uma pequena contribuição, refletindo acerca do descolamento entre o ser social e a natureza, determinado por uma nova forma de enxergar o mundo a partir das lentes da economia que distorce a realidade para que a exploração seja mais aceitável e gere menos descontentamento, uma vez que, a alienação é o melhor marketing.


Mas a arte ainda se mantém firme em seu propósito de nos fazer despertar da matrix [2] e nos fazer perceber que bebida não é só água e comida não é só pasto.


Mas e você, tem sede de que?



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Fonte: Quino (2003, p. 150, tira 1).

Referência: QUINO, J. L. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


Notas:

[2] Meu agradecimento especial à categoria dos poetas de buzu está no texto ‘’Para que serve o poeta de buzu’’, leia em: https://www.soteroprosa.com/single-post/para-que-serve-o-poeta-de-buzu


Referências:


CASTROGIOVANNI , Antônio Carlos. et al.(org.) Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano .Porto Alegre: Mediação, 2000.


Santos, M. (2013). "A Evolução recente da População Urbana, Agrícola e Rural", “O Meio Técnico-científico” e “A Urbanização e a Cidade Corporativa”. In: A Urbanização Brasileira. 5. Ed., 3 reimp., (pp. 29-34/ 35-48/ 99-116) – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.



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2 Comments

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Muito importante a reflexão. Salvador está cada vez tão bonita quanto um presídio. A pergunta é qual condomínio prisão que vamos escolher pra morar? Qual a alienação vai nos vender?

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Exatamente, Gilberto. Os tempos estão cada vez mais caóticos e quem mais sofre somos nós

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